13 de set de 2013

Asteroide passa pela Terra e engana cientistas por quase 30 anos

Imagem registrada pelo telescópio Spitzer mostra uma sutil coma e cauda detectada ao redor do asteroide-cometa 3552 Don Quixote. A imagem da direita foi pós-processada com o objetivo de subtrair a coma do cometa para facilitar a detecção da cauda. Crédito: NASA/JPL- altech/DLR/NAU, Apolo11.com.
 
Em agosto de 1983, um asteroide com mais de 18 km de comprimento passou a 44 milhões de km da Terra e foi observado por dezenas de telescópios terrestres. Agora, passados 30 anos, pesquisadores descobriram que o objeto não era um asteroide e sim cometa que ainda está ativo. Batizado de 3552 Don Quixote, o objeto se aproximou da Terra em 20 de agosto de 1983 e de acordo com dados fornecidos pelo Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, JPL, é o terceiro maior asteroide nas vizinhanças do planeta.

A descoberta de que Don Quixote é um cometa e não um asteroide resultou de um projeto coordenado por cientistas da Northern Arizona University, nos EUA, que usaram imagens no espectro infravermelho registradas pelo Telescópio Espacial Spitzer, da NASA.
 
Através de uma análise minuciosa, os pesquisadores encontraram evidências de atividade cometária que escaparam de detecção por três décadas. Os resultados indicam que Don Quixote não é um cometa morto como se acreditava até agora, mas apresenta uma sutil coma e cauda formada pela liberação de dióxido de carbono e possivelmente pela sublimação de parte da grande quantidade de água em forma de gelo que compõe sua estrutura.
 
A detecção do dióxido de carbono ejetado por Don Quixote exigia muita sensibilidade nos comprimentos de onda infravermelhos e não teria sido possível usando os telescópios terrestres existentes na época da aproximação", disse o cientista Michael Mommert, que iniciou as pesquisas do cometa junto ao Centro Aeroespacial da Alemanha. Para o pesquisador, a descoberta mostra que o dióxido de carbono e água congelada podem estar presentes em outros asteroides próximos da Terra.
 
No entender de David Trilling, coautor do estudo junto à Northern Arizona University, as implicações da descoberta têm menos a ver com a possibilidade de impacto, o que é extremamente improvável, e mais com a origem da água na Terra. Para ele, ao longo do tempo geológico os impactos de cometas como Don Quixote podem representar uma boa parte da água existente na Terra e a quantidade em Don Quixote representa cerca de 100 bilhões de toneladas de água - mais ou menos a mesma quantidade que pode ser encontrada no lago Tahoe, na Califórnia.

Apesar das grandes dimensões e forte capacidade de destruição caso ocorra um impacto contra a Terra, as chances de isso ocorrer são totalmente descartadas. A próxima passagem de Don Quixote nas cercanias do planeta está prevista para agosto de 2053, quando a rocha cometária vai passar a 67 milhões de quilômetros de distância.

Mais de 200 mil se dizem dispostos a viajar a Marte sem retorno

A Mars One busca 24 voluntários ou seis grupos de quatro que realizarão o trajeto de ida sem volta com dois anos de intervalo
 
Mais de 200 mil pessoas de 140 países pediram para fazer parte do grupo de eventuais primeiros colonizadores de Marte em uma viagem sem retorno, informou na segunda-feira a companhia Mars-One, envolvida no projeto. No total, 202.586 pessoas se registraram para integrar a primeira leva de olonos, informou em um comunicado a empresa sem fins lucrativos holandesa, que em abril de 2013 lançou uma convocação de candidaturas para uma viagem de sete meses de duração e sem retorno a Marte, prevista para 2023.
 
O maior grupo de interessados provém de Estados Unidos (24%), Índia (10%), China (6%) e Brasil (5%), mas também se inscreveram candidatos de Argentina, Chile, Colômbia, Espanha, México e Peru, bem como de Alemanha, Austrália, Canadá, Filipinas, França, Itália, Polônia, Reino Unido, Rússia, Turquia e Ucrânia. Três fases de seleção estão previstas nos próximos dois anos, acrescentou a Mars-One. "Até 2015, entre seis e dez equipes de quatro pessoas receberão treinamento completo" antes de que "algumas dessas equipes se tornem em 2023 os primeiros humanos a pousar em Marte para lá viverem pelo resto de suas vidas", disse.
 
Este projeto, que tem custo de 6 bilhões de dólares, segundo a Mars-One, encontra alguns céticos, mas recebeu o apoio do ganhador holandês do Prêmio Nobel de Física em 1999, Gerard't Hooft. Até agora só houve missões com robôs a Marte, todas realizadas com sucesso pela Nasa. No entanto, a agência espacial americana informou em maio que os Estados Unidos estão decididos a enviar astronautas a Marte dentro de duas décadas. Mas o projeto Mars-One enfrenta vários obstáculos. Os participantes não apenas não poderão retornar à Terra, como também terão que viver em pequenos habitats, encontrar água, produzir oxigênio e cultivar os próprios alimentos.
 
Além disso, Marte é um grande deserto, a atmosfera é composta principalmente de dióxido de carbono e a temperatura média é de - 63 graus Celsius. Os astronautas também se submeterão à radiação cósmica perigosa durante sua viagem. Por último, ainda não existe um foguete e uma cápsula que transporte esses voluntários, admitiu a Mars-One.
Fonte: Info Abril

Planetas para todos

Impressão do artista de Corot-7b

Grandes, pequenos, quentes, frios - O número de planetas descobertos fora do Sistema Solar vai a caminho dos 900. Os cientistas dividem-nos em vários tipos, de acordo com as suas características.
 
-CHTHONIANOS
Exemplo: COROT-7b
Massa: Até nove vezes a terrestre
Raio da órbita: 2,58 milhões de quilómetros
O nome deriva do de umas criaturas subterrâneas da mitologa grega. Provavelmente, estes corpos rochosos eram gigantes gasosos que perderam a sua espessa camada atmosférica.
 
-JÚPITERES QUENTES
Exemplo: 51 Pegasi b
Massa: metade da de Júpiter
Raio da órbita: Menos de 7,9 milhões de km
A estes mundos semelhantes ao maior planeta do Sistema Solar também se chama “jovianos periestelares”. Se são quentes, isso significa que estão umas cem vezes mais próximos da sua estrela do que Júpiter do Sol.
 
-NETUNOS QUENTES
Exemplo: Gliese 436b
Massa: 22 vezes a terrestre
Raio da órbita: 4,4 milhões de km
São gigantes gasosos que orbitam perto de uma estrela. No caso concreto de Gliese, gira em torno de uma relativamente escura e fria anã vermelha, a variedade estelar mais abundante no universo. Crê-se que a sua atmosfera contenha metano.
 
-SUPERNETUNOS
Exemplo: HAT-P-11b
Massa: 25 vezes a terrestre
Raio da órbita: 7,9 milhões de km
Maior e mais massivo do que Neptuno, não chega, no entanto, às dimensões dos exoplanetas jovianos. O HAT-P-11b foi detetado em trânsito: ao passar diante da sua estrela, reduz a luz dela que chega até nós. Com esta pista, os astrónomos calcularam as suas proporções.
 
-AQUÁTICOS
Exemplo: GJ 1214 b
Massa: 6,55 vezes a terrestre
Raio da órbita: 2,14 milhões de km
Maiores do que a Terra, estão cobertos por vastos oceanos de água em estado líquido. O GJ 1214 b foi o primeiro a ser descoberto, e continua a ser o único.
 
-SUPERTERRAS
Exemplo: Kepler-22b
Massa: desconhecida
(o raio é 2,4 vezes o terrestre)
Raio da órbita: 127 milhões de km
Denominam-se assim os exoplanetas até dez vezes mais massivos do que a Terra. Poderiam reunir as condições para serem habitáveis, mas é muito difícil localizá-los.
 
-TERRESTRES
Exemplo: Terra
Massa: 0,003 vezes a de Júpiter
Raio da órbita: 150 milhões de km
São os mais procurados pelos caçadores de exomundos, na esperança de que um objeto semelhante ao nosso lar planetário possa albergar vida.
 
-GIGANTES GASOSOS
Exemplo: Júpiter
Massa: 318 vezes a terrestre
Raio da órbita: 778 milhões de km
Estes enormes corpos celestes possuem uma densa atmosfera, composta principalmente por hidrogénio e hélio, que envolve um pequeno núcleo de rocha.
 
-NETUNIANOS
Exemplo: Neptuno
Massa: 17 vezes a terrestre
Raio da órbita: 4500 milhões de km
Constituem a variedade mais numerosa no catálogo dos planetas extrassolares. Embora quase todos os exemplares conhecidos sejam quentes, também foram encontrados alguns na zona fria ou temperada, onde existem condições para o aparecimento de vida.
 
-ANÃS CASTANHAS
Exemplo: Gliese 229b
Massa: entre 20 e 50 vezes a de Júpiter
Raio da órbita: 6000 milhões de km
Excedem o tamanho de um planeta, mas não irradiam luz visível, pelo que não cumprem o principal requisito para merecer a categoria de estrela. Pelo contrário, emitem radiação infravermelha, gerada pela sua contração gravitacional e por fusões nucleares de deutério.
 
-VAGABUNDOS
Exemplo: CHA 110913
Massa: oito vezes a de Júpiter
Deambula pela Via Láctea, sem estrela
Os cientistas descobriram vários corpos candidatos a ingressar neste clube extravagante, mas também pode tratar-se de anãs castanhas. No caso de se confirmarem como planetas, terão sido expulsos do seu sistema estelar.
Fonte: SUPER

Quando a Lua crescente encontra o planeta Vênus

Créditos de imagem e direitos autorais: Luis Argerich, Agustin Llorens, Guido Medici, Gabriel Remotti
 
No dia 8 de Setembro de 2013, o brilhante planeta Vênus apareceu como a estrela da noite pairando perto da fina Lua Crescente ao pôr-do-Sol. O encontro celeste, ou conjunção foi uma cena que maravilhou observadores por todo o mundo. Mas de alguns locais da América do Sul, a Lua na verdade passou na frente de Vênus, numa ocultação lunar. Capturada perto de Las Cañas, no Uruguai, esse mosaico de dois frames de imagens telescópicas, mostra a Lua e Vênus antes e depois da ocultação. A prateada estrela noturna aparece à direita um pouco antes de se esconder atrás do limbo lunar escuro, ainda no céu que brilhava com a luz crepuscular. Aproximadamente uma hora depois Vênus emergiu (à esquerda) juntamente à borda iluminada da Lua Crescente com três dias de vida.
Fonte: http://apod.nasa.gov/apod/ap130913.html

Estrelas e poeira através da Corona Australis

Crédito de imagem e direitos autorais: Ignacio Diaz Bobillo
 
Nuvens de poeira cósmica se espalham através do campo de estrelas nessa bela vista telescópica de uma região localizada próxima da borda da Corona Australis, a Coroa do Sul. A menos de 500 anos-luz de distância as nuvens de poeira efetivamente bloqueiam a luz das estrelas de fundo mais distantes na Via Láctea. O frame como um todo se espalha por cerca de 2 graus, ou mais de 15 anos-luz na distância estimada das nuvens. Perto do centro da imagem está um grupo de amáveis nebulosas de reflexão catalogadas como NGC 6726, 6727, 6729 e IC 4812. Uma cor azul característica é produzida à medida que a luz proveniente de estrelas quentes é refletida pela poeira cósmica. A poeira também obscurece da visão, estrelas na região que ainda estão em processo de formação. A nebulosa menor amarelada NGC 6729 circunda a jovem estrela variável R Coronae Australis. Abaixo estão os arcos e loops identificados como objetos Herbig Haro associados com estrelas energéticas recém-nascidas. O magnífico aglomerado estelar globular NGC 6723, está na parte direita da imagem. Apesar da NGC 6723 parecer ser parte desse grupo, suas antigas estrelas na verdade estão a aproximadamente 30000 anos-luz de distância, bem mais distantes do que as jovens estrelas das nuvens de poeira da Corona Australis.
Fonte: http://apod.nasa.gov

É OFICIAL: Voyager 1 deixa sistema solar e entra no espaço interestelar

Esta impressão de artista mostra a sonda Voyager 1 contra um fundo de estrelas na vasta escuridão do espaço.Crédito: NASA/JPL-Caltech

A sonda Voyager 1 da NASA é oficialmente o primeiro objecto feito pelo Homem a aventurar-se no espaço interestelar. A sonda com 36 anos está a 19 mil milhões de quilómetros do nosso Sol. Novos e inesperados dados indicam que a Voyager 1 há já cerca de um ano que viaja por plasma, ou gás ionizado, presente no espaço entre as estrelas. A Voyager está numa região de transição imediatamente fora da bolha solar, onde alguns efeitos do nosso Sol ainda são evidentes. Um relatório sobre a análise destes novos dados, um esforço liderado por Don Gurnett e pela equipa de ciência de ondas de plasma da Universidade de Iowa, em Iowa City, foi publicado na edição de ontem da revista Science.
 
"Agora que temos novos dados fundamentais, acreditamos que este é o salto histórico da Humanidade para o espaço interestelar," afirma Ed Stone, cientista do projecto Voyager com base no Instituto de Tecnologia da Califórnia em Pasadena, EUA. "A equipa da Voyager precisava de tempo para analisar as observações, mas agora podemos responder à pergunta que todos colocávamos: 'Já chegámos? Sim, chegámos'".
 
A Voyager 1 detectou o aumento de pressão do espaço interestelar na heliosfera, a bolha de partículas carregadas que rodeia o Sol e que vai muito além dos planetas exteriores, em 2004. Os cientistas de seguida incrementaram a sua busca por evidências da chegada da sonda ao espaço interestelar, sabendo que a análise dos dados e interpretação poderia levar meses ou anos. A Voyager 1 não tem um sensor de plasma em funcionamento, por isso os cientistas precisavam de um modo diferente de medir o ambiente de plasma da sonda para fazer uma determinação definitiva da sua localização.
 
Uma ejecção de massa coronal, um grande surto de ventos solares e campos magnéticos, expelida do Sol em Março de 2012, forneceu aos cientistas os dados que precisavam. Quando este presente inesperado do Sol eventualmente alcançou a Voyager 1 treze meses depois, em Abril de 2013, o plasma em redor da sonda começou a vibrar como uma corda de um violino. A 9 de Abril, o instrumento de ondas de plasma da Voyager 1 detectou o movimento.
 
O tom das oscilações ajudou os cientistas a determinar a densidade do plasma. Estas oscilações particulares significa que a sonda foi banhada em plasma mais de 40 vezes mais denso do que o encontrado na camada exterior da heliosfera. Uma densidade deste género é esperada no espaço interestelar. A equipa científica de ondas de plasma analisou novamente os seus dados e descobriu um conjunto mais fraco e anterior de oscilações em Outubro e Novembro de 2012. Através da extrapolação de densidades de plasma medidas em ambos os eventos, a equipa determinou que a Voyager 1 entrou pela primeira vez no espaço interestelar em Agosto de 2012.
 
"Nós literalmente saltámos da cadeira quando vimos estas oscilações nos dados -- estes mostravam que a sonda estava numa região completamente nova, comparável ao que seria de esperar no espaço interestelar, e totalmente diferente da bolha solar," afirma Gurnett. "Claramente tínhamos passado pela heliopausa, que é o limite há muito teorizado entre o plasma solar e o plasma interestelar." 
Impressão de artista da sonda Voyager 1 entrando no espaço entre as estrelas. O espaço interestelar é dominado por plasma, gás ionizado (ilustrado aqui em tons castanhos), que foi expelido por estrelas gigantes há milhões de anos atrás.Crédito: NASA/JPL-Caltech
 
Os novos dados de plasma sugerem um calendário consistente com mudanças bruscas e duráveis na densidade das partículas energéticas que foram detectadas pela primeira vez no dia 25 de Agosto de 2012. A equipa da Voyager geralmente aceita esta data como a data de chegada ao espaço interestelar. As partículas carregadas e as alterações no plasma foram as esperadas durante a travessia da heliopausa. O árduo trabalho da equipa em construir uma nave espacial durável e a cuidadosa gestão dos recursos limitados da Voyager compensaram num novo marco para a NASA e para a Humanidade," afirma Suzanne Dodd, gestora do projecto Voyager, do JPL da NASA em Pasadena, no estado americano da Califórnia.
 
"Esperamos que os instrumentos da Voyager continuem a enviar dados até pelo menos 2020. Mal podemos esperar para ver o que os instrumentos da Voyager nos mostram sobre o espaço profundo." A Voyager 1 e sua gémea, a Voyager 2, foram lançadas com 16 dias de diferença em 1977. Ambas as sondas passaram por Júpiter e Saturno. A Voyager 2 também passou por Urano e Neptuno. A Voyager 2, lançada antes da Voyager 1, é a nave espacial há mais tempo em operação. Está a cerca de 15 mil milhões de quilómetros do nosso Sol.
 
Os controladores da Voyager ainda recebem dados da Voyager 1 e Voyager 2 todos os dias, apesar dos sinais emitidos serem actualmente muito fracos, a cerca de 23 watts -- o poder de uma lâmpada de um frigorífico. Quando os sinais chegam à Terra, são uma fracção de um trilionésimo de watt. Os dados dos instrumentos da Voyager 1 são transmitidos para a Terra normalmente a 160 bits por segundo, e capturados pelas antenas de 34 e 70 metros das estações DSN (Deep Space Network) da NASA. À velocidade da luz, um sinal da Voyager 1 leva cerca de 17 horas a viajar até à Terra. Depois dos dados serem transmitidos para o JPL e processados pelas equipas científicas, são disponibilizados publicamente.
 
"A Voyager foi corajosamente onde nenhuma sonda foi antes, marcando um dos avanços tecnológicos mais importantes nos anais da história da ciência, e adicionando um novo capítulo aos sonhos e esforços científicos humanos," afirma John Grunsfeld, administrador associado da NASA para ciência em Washington. "Talvez os exploradores do espaço profundo no futuro alcancem a Voyager, o nosso primeiro enviado interestelar, e reflictam sobre como esta intrépida nave ajudou a consolidar a sua viagem.
 
Os cientistas não sabem quando é que a Voyager 1 vai alcançar a parte não perturbada do espaço interestelar onde não existe influência do nosso Sol. Eles também não têm a certeza quando é que a Voyager 2 vai cruzar para o espaço interestelar, mas acreditam que não está muito longe. O custo das missões da Voyager 1 e 2 - incluindo o lançamento, operações da missão e as baterias nucleares das naves - alcança os 988 milhões de dólares este mês.
Fonte: Astronomia On-Line

O amendoim no coração da nossa Galáxia

Os telescópios do ESO criam o melhor mapa 3D de sempre do bojo central da Via Láctea 
Esta impressão artística mostra qual a forma da Via Láctea quando vista praticamente de perfil e de uma perspectiva completamente diferente da que temos a partir da Terra. O bojo central parece uma bola brilhante de estrelas em forma de amendoim e os braços em espiral e as suas nuvens de poeira associadas formam uma banda estreita.Créditos: ESO/NASA/JPL-Caltech/M. Kornmesser/R. Hurt
 
Dois grupos de astrónomos usaram dados dos telescópios do ESO para fazerem o melhor mapa a três dimensões de sempre das zonas centrais da Via Láctea. As equipas descobriram que as regiões internas se parecem com um amendoim ou uma estrutura em X, quando vistas a partir de certos ângulos. Esta forma estranha foi mapeada com o auxílio de dados públicos do telescópio de rastreio VISTA do ESO e também a partir de medições dos movimentos de centenas de estrelas muito ténues situadas no bojo central.
 
O bojo galáctico é uma das regiões mais importantes e de maior massa da nossa Galáxia. Esta enorme nuvem central com cerca de 10 000 milhões de estrelas tem uma dimensão de milhares de anos-luz mas a sua estrutura e origem não eram bem compreendidas. Infelizmente a partir do interior do disco galáctico que é a posição da Terra, a vista desta região central - a cerca de 27 000 anos-luz de distância - encontra-se fortemente obscurecida por nuvens densas de gás e poeira. Os astrónomos apenas conseguem obter uma boa vista do bojo observando a grandes comprimentos de onda, tais como em radiação infravermelha, a qual consegue penetrar as nuvens de poeira.

Observações anteriores obtidas no âmbito do rastreio infravermelho do céu 2MASS, tinham já sugerido que o bojo tinha uma misteriosa forma em X. Agora, dois grupos de cientistas utilizaram novas observações de vários telescópios do ESO para obterem uma vista muito mais clara da estrutura do bojo. O primeiro grupo, do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre (MPE) em Garching, Alemanha, usou o rastreio no infravermelho próximo VVV do
telescópio VISTA, instalado no Observatório do Paranal do ESO, no Chile. Este novo rastreio público consegue observar estrelas trinta vezes mais ténues do que as observadas em anteriores rastreios ao bojo.
 
A equipa identificou um total de 22 milhões de estrelas pertencentes à classe das gigantes vermelhas, cujas propriedades bem conhecidas permitem calcular as suas distâncias. “A profundidade do catálogo de estrelas VISTA excede de longe trabalhos anteriores e conseguimos detectar a população total destas estrelas em todas as regiões menos nas mais obscuras,” explica Christopher Wegg (MPE), autor principal do primeiro estudo. “A partir desta distribuição estelar pudemos fazer um mapa a três dimensões do bojo galáctico. Esta é a primeira vez que tal mapa é feito sem se assumir um modelo teórico para a forma do bojo.”

“Descobrimos que a região interna da nossa Galáxia tem a forma de um amendoim na casca vista de um lado e a uma barra muito alongada vista de cima,” acrescenta Ortwin Gerhard, co-autor do primeiro artigo e líder do grupo do MPE. “É a primeira vez que conseguimos observar estas características da nossa Galáxia de forma clara e simulações feitas pelo nosso grupo e por outros autores mostram que esta forma é característica de uma galáxia barrada que começou como um disco puro de estrelas.”

A segunda equipa internacional, liderada pelo estudante de doutoramento chileno Sergio Vásquez (Pontificia Universidad Católica de Chile, Santiago, Chile e ESO, Santiago, Chile), utilizou uma abordagem diferente para identificar a estrutura do bojo. Ao comparar imagens observadas com o auxílio do telescópio MPG/ESO de 2,2 metros e obtidas com um intervalo de onze anos, a equipa pôde medir os minúsculos desvios no céu devido aos movimentos das estrelas do bojo. Estes desvios foram combinados com medições dos movimentos das mesmas estrelas a aproximarem-se ou a afastarem-se da Terra, mapeando-se assim os movimentos de mais de 400 estrelas em três dimensões.

“Esta é a primeira vez que se obteve um grande número de velocidades em três dimensões para estrelas individuais de ambos os lados do bojo”, conclui Vásquez. “As estrelas que observámos parecem estar a mover-se ao longo dos braços em forma de X do bojo, à medida que as suas órbitas as levam para cima e para baixo e para fora do plano da Via Láctea. Tudo isto se ajusta na perfeição com previsões de modelos atuais!”

Os astrónomos pensam que a Via Láctea era originalmente um disco puro de estrelas, que formou uma barra plana há milhares de milhões de anos atrás. Esta barra deu depois origem à forma de amendoim a três dimensões vista nas novas observações.
Fonte: ESO
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