Plutão quer voltar no tapetão

Concepção artística de Plutão e sua maior lua, Caronte. Ao fundo, o Sol, rodeado pelo cinturão de asteroides.
Prepare-se, porque não deve ser a última vez que você ouve falar disto ao longo do próximo ano. Astrônomos americanos estão tentando trazer Plutão de volta à primeira divisão no tapetão. O Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica, em Cambridge, Massachusetts, realizou no último dia 18 um debate público entre três astrônomos, defendendo diferentes definições para a palavra “planeta”. Ao final, os presentes tiveram a chance de votar. E “aprovaram” uma definição que efetivamente restauraria o bom nome de Plutão. Se isso não é fazer pressão sobre a União Astronômica Internacional (IAU), o órgão que tem como incumbência dizer o que cada coisa no espaço de fato é, então não sei o que seria. Descoberto em 1930 pelo americano Clyde Tombaugh, Plutão foi considerado o nono planeta até 2006, quando a IAU estabeleceu pela primeira vez a definição do termo “planeta”. Usado desde tempos imemoriais, ele vem do grego e significa algo como “astro andarilho”. De início, era usado para classificar aqueles objetos que não acompanhavam o mesmo movimento das estrelas no céu. Numa época em que a Terra era considerada o centro do Universo, até o Sol era planeta. Depois da revolução copernicana, nos séculos 16 e 17, passou a se chamar planeta todo objeto esférico e grande em torno do Sol, mas não havia uma definição clara. Para resolver isso de uma vez por todas, a proposta aprovada em assembleia geral pela IAU qualificou planeta como um objeto que preenche três pré-requisitos.

1. Orbitar o Sol.
2. Ser aproximadamente esférico.
3. Ter “limpado” a região de sua órbita — ou seja, ser o astro dominante em sua trajetória em torno do Sol.


Plutão passa nos dois primeiros critérios, mas falha no terceiro: ele faz parte do cinturão de Kuiper, um repositório de objetos gelados dos mais diversos tamanhos, dos pequenos pedregulhos a astros do porte do antigo nono planeta. Como prêmio de consolação, a IAU criou a categoria dos planetas anões — uma espécie de segunda divisão planetária — e enquadrou Plutão nela. E o Sistema Solar passou a ter oficialmente apenas oito planetas: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.

REABRINDO O DEBATE

Os astrônomos americanos parecem ter um apreço especial por Plutão. Não só por ter sido descoberto por um conterrâneo, mas por terem uma sonda prestes a chegar lá. A New Horizons foi lançada em 2006, alguns meses antes do rebaixamento. Quando ela partiu, portanto, ela estava efetivamente indo a caminho do nono planeta. Sua chegada está marcada para 14 de julho do ano que vem. Não há dúvida de que a decisão da IAU foi recheada de reviravoltas. Durante a assembleia geral, realizada em Praga em 2006, uma primeira proposta de definição levava em conta apenas os critérios 1 e 2, o que efetivamente deixava o Sistema Solar com 13 planetas, e outros mais por vir. Essa primeira tentativa chocou a maior parte dos astrônomos, que relutavam em colocar na mesma categoria qualquer objeto redondo encontrado nas profundezas do Sistema Solar, em meio a um cinturão bastante povoado, com um planeta que domina sua região do espaço de forma absoluta. Então surgiu a definição que efetivamente foi à votação e acabou aprovada.

Na “reabertura do caso” promovida pelo Centro Harvard-Smithsonian, coube a Gareth Williams, diretor associado do Centro de Planetas Menores (a divisão que cuida de asteroides e cometas na IAU), defender a definição que está em vigor. Por sua vez, o historiador da ciência Owen Gingerich, que chefiou o comitê de definição de planeta da IAU na fatídica reunião de 2006, desta vez apresentou uma outra visão, sugerindo que a definição de planeta é cultural e simplesmente muda com o tempo. Por essa ótica, Plutão seria um planeta, por ser considerado dessa forma pela maioria das pessoas.

Por fim, Dimitar Sasselov, diretor da Inciativa Origens da Vida de Harvard, defendeu uma definição mais abrangente, segundo a qual planeta seria “o menor agregado de matéria esférico que se formou em torno de estrelas ou remanescentes estelares”. Uma vantagem dessa definição é que ela abarca os exoplanetas — aqueles que orbitam outras estrelas, que não o Sol. Em compensação, por ser abrangente, ela traria Plutão de volta à primeira divisão, assim como Ceres e alguns outros objetos já conhecidos (e outros desconhecidos) no Sistema Solar. Sem se importar com isso, a maioria dos presentes (uma contagem tão esmagadora que nem precisou de contabilização formal) votou pelo ponto de vista de Sasselov e efetivamente clamou pela volta de Plutão.

E COMO FICAMOS?

A despeito do barulho, tudo continua como está. E o Mensageiro Sideral acha que a atual definição é mesmo a mais sensata, pois ela retrata não só nosso conhecimento do Sistema Solar como o processo de formação dos planetas. Claramente, durante o surgimento do nosso sistema planetário, dois processos distintos aconteceram. Em certas regiões, um astro dominante limpou sua órbita. Aconteceu nas órbitas de Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Já em duas outras grandes faixas — o cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter e o cinturão de Kuiper, além de Netuno — isso não aconteceu. Embora muitos objetos tenham se formado por lá, nenhum cresceu o suficiente para se tornar dominante.

Parece-me justo qualificar os maiores dentre esses objetos como “planetas anões”. Eles são similares aos planetas, mas não são exatamente planetas. Agora, precisamos também compreender que não é a categoria que atribuímos ao objeto que o torna interessante ou desinteressante. Embora não ache que Plutão mereça ser chamado de planeta, é óbvio que trata-se de um mundo fascinante e que merece toda a atenção que tem recebido da missão New Horizons. Para todos os efeitos práticos, Plutão é tão interessante quanto qualquer planeta do Sistema Solar. Mesmo que não seja um deles.
Fonte: Salvador Nogueira - Mensageiro Sideral

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