Astronomos estudam planeta infernal

Um quarteto de cientistas europeus fez a primeira possível detecção de vulcanismo num planeta fora do Sistema Solar. E é um mundo da classe das superterras — provavelmente rochoso como o nosso, mas ligeiramente maior. Trata-se de um ambiente infernal, que faz lugares como Vênus parecerem colônias de férias.

Concepção artística de vulcanismo intenso no planeta 55 Cancri e, a 40 anos-luz da Terra (Crédito: Universidade de Cambridge)
Concepção artística de vulcanismo intenso no planeta 55 Cancri e, a 40 anos-luz da Terra (Crédito: Universidade de Cambridge)


É mais uma daquelas pesquisas que dá o tom do que podemos esperar nos próximos anos no estudo dos exoplanetas. A descoberta foi feita com o telescópio espacial Spitzer, da Nasa, plataforma dedicada a realizar observações em infravermelho. Os astrônomos estavam especialmente interessados no sistema planetário da estrela 55 Cancri — um dos mais fascinantes que já descobrimos até agora. Ela é uma anã amarela, como o Sol, a meros 40 anos-luz de distância, na constelação de Câncer. São cinco planetas conhecidos. O mais interno, 55 Cancri e, é o único deles que passa periodicamente à frente de sua estrela-mãe, com relação a observadores por essas bandas. Agora, imagine um planeta que completa uma volta em torno de sua estrela em 18 horas. Ou seja, ele circunda seu sol — que tem basicamente o mesmo tamanho do nosso — em menos tempo que a Terra leva para dar uma volta em torno de si mesma! Na prática, isso quer dizer que ele orbita absurdamente perto de seu astro central e, portanto, é absurdamente quente.

Os trânsitos periódicos à frente da estrela permitiram estimar seu tamanho: ele tem cerca de duas vezes o diâmetro da Terra. Sua massa, por sua vez, foi revelada pela detecção do suave bamboleio gravitacional que ele provoca em sua estrela-mãe conforme ele gira em torno dela. 55 Cancri e tem aproximadamente oito vezes a massa terrestre. O mais interessante, contudo, foi detectar uma incrível variação de temperatura em apenas dois anos, estimada pelo nível de radiação infravermelha vinda do planeta e detectada pelo Spitzer. Entre 2012 e 2013, o lado diurno de 55 Cancri e parece ter ido de 1.000 graus Celsius para 2.700 graus Celsius!

“Vimos uma mudança de 300% no sinal vindo desse planeta, e é a primeira vez que vemos esse nível enorme de variabilidade num exoplaneta”, disse em nota Brice-Olivier Demory, astrônomo do Laboratório Cavendish, na Universidade de Cambridge, e primeiro autor do trabalho, publicado no periódico “Monthly Notices of the Royal Astronomical Society”.

O QUE ESTAMOS VENDO?
O grande mistério é como explicar essa incrível variação no monitoramento de 55 Cancri e. Os cientistas, cá para nós, não sabem com certeza do que se trata, mas isso não os impede de apresentar a hipótese que julgam mais provável. “Embora não possamos estar inteiramente certos, pensamos que uma explicação provável para essa variabilidade seja a de que atividade superficial de larga escala, possivelmente vulcanismo, esteja ejetando volumes consideráveis de gás e poeira, que algumas vezes acobertam a emissão térmica do planeta, de forma que não seja visível da Terra”, diz Demory.
Ou seja, o planeta seria um inferno vulcânico ultraquente, com sua superfície provavelmente parcial ou totalmente derretida, mas vez por outra essas erupções geram tanta poeira que ela encobre o planeta e não permite que o calor (infravermelho) emitido por ele vaze para o espaço.

Com menos radiação vazando para fora, teríamos a medição equivalente à dos 1.000 graus. Quando a poeira sai da frente e o calor vaza por inteiro, detectamos os 2.700 graus. É uma possibilidade, não? O que mais me empolga, no entanto, é a simples perspectiva aberta por estudos como esse — estamos começando a dar “cara” a todos esses planetas descobertos. E o sistema 55 Cancri em particular parece ter uma cara bem interessante até agora. Como eu disse antes, ele tem cinco planetas conhecidos. O que foi objeto desse estudo é o 55 Cancri e, o mais interno. Depois dele, temos o 55 Cancri b, que é basicamente um Júpiter quente — com 82% da massa do nosso Júpiter, ele completa uma volta em torno de sua estrela-mãe em apenas 14,6 dias terrestres. O terceiro planeta, 55 Cancri c, tem cerca de 17% da massa de Júpiter — ou pouco mais de três vezes a massa do nosso Netuno — e completa uma volta a cada 44,3 dias.

Chegamos então ao meu favorito, 55 Cancri f, que é basicamente uma réplica de 55 Cancri c, com 16% da massa de Júpiter, mas um aspecto especial: ele passa boa parte de sua órbita, mas não toda, na chamada zona habitável do sistema — região em torno da estrela em que o nível de radiação é ideal para a manutenção de água em estado líquido numa superfície planetária. O curioso é que ele tem uma órbita relativamente achatada, que completa em 260 dias, então durante metade de seu ano ele está na zona habitável, e na outra metade ele está mais para dentro do sistema.

Pelo porte, o planeta em si deve ser um gigante gasoso, inabitável, mas se tem uma coisa que vemos com frequência nos gigantes gasosos do Sistema Solar são luas. Será que 55 Cancri f não tem luas? E, tendo-as, será que alguma delas pode ser habitável? Deixo essa por conta da sua imaginação. Para completar a festa, ainda temos 55 Cancri d, um monstrengo com quase quatro vezes a massa de Júpiter e que tem uma órbita praticamente igual à do nosso Júpiter (14 anos lá, 12 anos aqui). É um dos raros casos conhecidos de planetas com período tão grande quanto o dos nossos gigantes gasosos locais. Talvez o leitor tenha a curiosidade de saber por que diabos as letras designadas aos planetas estão fora de ordem, com relação às suas órbitas. Bem, os mundos são nomeados conforme a ordem de descoberta, então você pode saber que o b foi o primeiro (1996) e o f foi o último (2005).

E NÃO É SÓ ISSO!
Além de tudo, 55 Cancri é um sistema binário. A estrela A é a anã amarela, e em torno dela numa órbita distante, há uma anã vermelha, designada 55 Cancri B (como você também pode ter reparado, os astrônomos usam letras maiúsculas para designar estrelas, e minúsculas para planetas). Então temos, no mesmo pacote, a meros 40 anos-luz de distância, dois sóis, uma superterra provavelmente cheia de vulcanismo numa órbita suicida, um Júpiter quente, um gigante gasoso com possíveis luas habitáveis e um análogo de Júpiter numa órbita longa. Você me perdoa por eu achar isso absolutamente apaixonante?

Ao que tudo indica, esse sistema estelar é mais velho que o Sol — tem por baixo 7 bilhões de anos — e parece ter um conteúdo de elementos pesados bem maior que a média solar. Isso talvez explique a presença de planetas tão mais parrudos que os nossos, e em muitos casos em órbitas absurdamente curtas. Talvez não. E esse é o motivo da minha empolgação: estamos, pouco a pouco, abrindo a caixa-preta dos exoplanetas. E vai saber o que encontraremos lá fora nos próximos anos?

Uma coisa é certa: temos todos de esperar o inesperado. E, pelo sim, pelo não, 55 Cancri foi um dos poucos astros que já recebeu uma transmissão direcionada da Terra numa tentativa de comunicação com uma possível civilização daquele sistema. O sinal, ironicamente, foi enviado de um radiotelescópio na Crimeia, região da Terra em que atualmente nem quem mora lá consegue se entender direito. Mas não tema que a transmissão, ainda que recebida e decodificada, possa precipitar uma invasão alienígena tão já. Ela partiu em 2003, mas, viajando à velocidade da luz, só vai chegar a 55 Cancri em 2044.
Fonte: Salvador Nogueira - Mensageiro Sideral

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