9 de abr de 2015

Vivemos em um planeta de segunda geração

Comparação de tamanho: Terra, uma super-Terra e Netuno
Comparação de tamanho: Terra, uma super-Terra e Netuno

Muito antes de Mercúrio, Vênus, Terra e Marte terem se formado, parece que o sistema solar interior pode ter abrigado uma série de super-Terras – planetas maiores que a Terra, mas menores do que Netuno. Se assim for, esses planetas já se foram há muito tempo – se despedaçaram e caíram no sol há bilhões de anos, em grande parte devido a uma grande jornada de ida e volta que Júpiter fez no início da história do sistema solar. Este cenário tem sido sugerido por Konstantin Batygin, cientista planetário do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), e Gregory Laughlin, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, em um artigo publicado na edição online da revista “Proceedings”, da Academia Nacional de Ciências (PNAS).

Os resultados de seus cálculos e simulações sugerem a possibilidade de uma nova imagem do início do sistema solar que ajudaria a responder a uma série de questões pendentes sobre a composição atual do sistema e da própria Terra. Por exemplo, o novo trabalho aborda por que nossos planetas terrestres têm massas relativamente baixas em comparação com os planetas que orbitam outras estrelas semelhantes ao sol. “Nosso trabalho sugere que a migração para dentro e para fora de Júpiter poderia ter destruído uma primeira geração de planetas e preparado o terreno para a formação dos planetas terrestres com depleção de massa que o nosso sistema solar tem hoje”, diz Batygin, que é professor assistente de ciência planetária. “Tudo isso se encaixa muito bem com outros desenvolvimentos recentes na compreensão de como o sistema solar evoluiu”.

A resposta está nos exoplanetas

Graças a pesquisas recentes de exoplanetas – planetas em sistemas solares diferentes do nosso -, sabemos que cerca de metade das estrelas parecidas com o sol na nossa vizinhança galáctica têm planetas em suas órbitas. No entanto, esses sistemas em nada parecem com o nosso. Em nosso sistema solar, há muito pouco dentro da órbita de Mercúrio; existe apenas um pouco de detritos – provavelmente asteroides próximos da Terra que se moveram mais para dentro -, mas certamente não há planetas. Isso está em nítido contraste com o que os astrônomos vêem na maioria dos sistemas planetários.

Estes sistemas normalmente têm um ou mais planetas que são substancialmente mais massivos que a Terra orbitando mais perto de seus sóis do que Mercúrio, mas muito poucos objetos a distâncias além.  Na verdade, parece que hoje o sistema solar não é o representante comum do censo planetário galáctico. Em vez disso, somos um pouco isolados”, conta Batygin. “Mas não há nenhuma razão para pensar que o modo dominante de formação de planetas por toda a galáxia não teria ocorrido aqui. É mais provável que alterações posteriores tenham modificado sua composição original”.

Júpiter no centro de tudo

De acordo com Batygin e Laughlin, Júpiter é fundamental para a compreensão de como o sistema solar passou a ser do jeito que é hoje. Seu modelo incorpora algo conhecido como o cenário Grande Tack, que foi proposto pela primeira vez em 2001 por um grupo da Universidade Queen Mary, em Londres, e posteriormente revisitado em 2011 por uma equipe do Observatório de Nice, na França. Esse cenário diz que durante os primeiros milhões de anos de vida útil do sistema solar, quando os corpos planetários ainda estavam envolvidos em um disco de gás e poeira em torno de um sol relativamente jovem, Júpiter tornou-se tão grande e gravitacionalmente influente que foi capaz de fazer uma lacuna no disco.

E quando o sol puxou o gás do disco em direção a si mesmo, Júpiter também começou a se deslocar para dentro, como se tivesse sido levado em uma esteira rolante gigante. Júpiter teria continuado naquela esteira, eventualmente sendo despejado sobre o sol, se não fosse por Saturno”, explica Batygin. Saturno se formou depois de Júpiter, mas foi puxado para o sol a uma taxa mais rápida, permitindo que o primeiro se recuperasse. Uma vez que os dois planetas maciços chegaram perto o suficiente, eles permaneceram em um tipo especial de relacionamento chamado de ressonância orbital, no qual os seus períodos orbitais eram racionais – isto é, expressos como uma relação de números inteiros. Em uma ressonância orbital de 2 para 1, por exemplo, Saturno iria completar duas órbitas em torno do sol na mesma quantidade de tempo que levava para Júpiter dar esta volta apenas uma vez.

Em tal relação, os dois corpos começam a exercer uma influência gravitacional sobre o outro. Essa ressonância permitiu que os dois planetas abrissem uma lacuna mútua no disco, e eles começaram a jogar este jogo em que trocavam momento angular e energia com o outro, quase a uma batida”, continua Batygin. Eventualmente, esse vai e vem teria feito com que todo o gás entre os dois mundos fosse empurrado para fora, uma situação que teria invertido a direção de migração dos planetas e os enviado de volta para fora do sistema solar. Aí está a parte “tack” – “abordejar” em inglês – do cenário Grande Tack: os planetas migram para dentro e, em seguida, mudam de rumo drasticamente, algo como um barco circulando em torno de uma boia.

Mais perguntas

Em um modelo anterior desenvolvido por Bradley Hansen na Universidade da Califórnia em Los Angeles, os planetas terrestres convenientemente acabam em suas órbitas atuais com suas massas atuais sob um conjunto específico de circunstâncias – uma na qual todos os blocos de construção planetárias do sistema solar interno, ou planetesimais, acabam por preencher um anel estreito se estendendo de 0,7 a 1 unidade astronômica (1 unidade astronômica é a distância média do Sol à Terra), 10 milhões de anos após a formação do sol. De acordo com o cenário Grande Tack, a aresta exterior do anel teria sido delineada por Júpiter conforme ele se movia em direção ao sol. Mas e a borda interna? Por que os planetesimais se limitariam ao anel no interior? Batygin diz que esse ponto não foi abordado. A resposta, contudo, poderia estar em super-Terras primordiais.

O buraco vazio do sistema solar interno corresponde quase exatamente ao bairro orbital onde super-Terras são normalmente encontradas ao redor de outras estrelas. Por isso, é razoável especular que esta região foi “limpa” no sistema solar primordial por um grupo de planetas de primeira geração que não sobreviveram. Cálculos e simulações de Batygin e Laughlin mostram que conforme Júpiter se movia para dentro, ele puxou todos os planetesimais que encontrou ao longo do caminho para ressonâncias orbitais e levou-os até o sol. Porém, à medida que esses planetesimais se aproximavam do sol, suas órbitas também se tornavam elípticas.

“Você não pode reduzir o tamanho de sua órbita sem pagar um preço, que acaba sendo uma elipticidade aumentada”, aponta Batygin. Essas novas órbitas, mais alongadas, fizeram com que os planetesimais, principalmente aqueles da ordem de 100 km de raio, varressem regiões anteriormente impenetráveis do disco, desencadeando uma cascata de colisões entre os detritos. Na verdade, os cálculos da Batygin mostram que, durante este período, todos os planetesimais teriam colidido com outro objeto pelo menos uma vez a cada 200 anos, violentamente quebrando-os e enviando-os decompostos para o sol em uma taxa aumentada.

Os pesquisadores fizeram uma simulação final para ver o que aconteceria com uma população de super-Terras no interior do sistema solar se elas estivessem por perto quando esta cascata de colisões começou. Eles rodaram a simulação em um sistema extra-solar conhecido como Kepler-11, que dispõe de seis super-Terras, com uma massa combinada 40 vezes maior que a da Terra, orbitando uma estrela parecida com o sol. O resultado? O modelo prevê que as super-Terras seriam guidas para o sol por uma avalanche de planetesimais em decomposição durante um período de 20 mil anos.  É um processo físico muito eficaz. Você só precisa do equivalente à massa de algumas Terras em material para conduzir dezenas de planetas com massas terrestres para o sol”, garante o cientista do Caltech.

Uma parcela do sistema original

Batygin observa que, durante esse longo processo, uma fração dos planetesimais que Júpiter carregava com ele teria voltado a realizar órbitas circulares. Apenas cerca de 10% do material que Júpiter teria varrido precisaria ser deixado para trás para dar conta da massa que agora compõe Mercúrio, Vênus, Terra e Marte. A partir desse ponto, levaria milhões de anos para esses planetesimais se agruparem e, eventualmente, formarem os planetas terrestres – um cenário que se encaixa muito bem com as medidas que sugerem que a Terra se formou de 100 a 200 milhões de anos depois do nascimento do sol. Como o disco primordial de hidrogênio e gás hélio teria sumido há muito tempo neste momento da história, isso também poderia explicar por que a Terra não tem uma atmosfera de hidrogênio. “Nós fomos formados a partir deste detritos voláteis e empobrecidos”, esclarece Batygin.

E isso nos diferencia da maioria dos exoplanetas. O pesquisador acha que eles – que são em sua maioria super-Terras – teêm atmosferas de hidrogênio substanciais, porque se formaram em um momento na evolução de seu disco planetário no qual o gás ainda seria abundante. “Em última análise, o que isto significa é que planetas como a Terra realmente não são intrinsecamente muito comuns”, diz ele.

O documento também sugere que a formação de planetas gasosos gigantes, como Júpiter e Saturno – um processo que os cientistas planetários acreditam ser relativamente raro – desempenha um papel importante em determinar se um sistema planetário acaba ficando parecido com nosso ou com os sistemas mais típicos ao nosso redor, com suas super-Terras. À medida que caçadores de planetas identificarem sistemas adicionais que abrigam os gigantes gasosos, Batygin e Laughlin terão mais dados contra os quais eles podem verificar sua hipótese. Assim, eles poderão ver o quão frequentemente outro planeta gigante migratório deu início a cascatas colisionais em seus sistemas planetários, lançando super-Terras primordiais em suas estrelas hospedeiras.
Fontes: Hypescience.com


SUZAKU estuda "CENA DO CRIME" de supernova, mostra que única culpada é uma anã branca


Um estudo de 3C 397, um remanescente de supernova visto aqui em raios-X pelo Observatório de raios-X Chandra (púrpura) e pelo Suzaku (azul), indica que a explosão surgiu a partir de uma única anã branca que acumulou matéria de uma companheira estelar normal. A anã branca explodiu quando atingiu cerca das 1,4 massas solares. Crédito: NASA/Suzaku e NASA/CXC, DSS e NASA/JPL-Caltech

Usando dados de arquivo do satélite de raios-X Suzaku, liderado pelo Japão, astrónomos determinaram a massa pré-explosão de uma estrela anã branca que rebentou há milhares de anos atrás. A medição sugere fortemente que a explosão envolveu apenas uma única anã branca, descartando um cenário alternativo bem estabelecido que envolve um par de anãs brancas em fusão. Cada vez mais evidências indicam que ambos os mecanismos produzem o que chamamos de supernovas do Tipo Ia," afirma o investigador principal Hiroya Yamaguchi, astrofísico do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado americano de Maryland.

"Para compreender como é que estas estrelas explodem, precisamos de estudar os destroços em detalhe e com instrumentos sensíveis, como aqueles no Suzaku. Os cientistas analisaram observações de arquivo de um remanescente de supernova chamado 3C 397, localizado a cerca de 33.000 anos-luz de distância na direção da constelação de Águia. Os astrónomos estimam que esta nuvem estelar de detritos tem vindo a expandir-se há já 1000-2000 anos, o que torna 3C 397 um remanescente de meia-idade.

A equipa fez deteções claras de elementos cruciais para a massa da anã branca usando dados do XIS (X-ray Imaging Spectrometer) do Suzaku. A observação, levada a cabo em outubro de 2010 a energias entre os 5000 e os 9000 eV (eletrões-volt), forneceu uma exposição total efetiva de 19 horas. Os dados infravermelhos do Telescópio Espacial Spitzer da NASA forneceram mais informações sobre a quantidade de gás e poeira que o remanescente em expansão recolheu à medida que viaja pelo espaço interestelar. As observações, em abril de 2005, indicaram que 3C 397 varreu o equivalente a 18 vezes a massa da anã branca original. Como resultado, a equipa conclui que as ondas de choque aqueceram minuciosamente as zonas mais interiores do remanescente.

A maioria das estrelas de baixa e média massa, semelhantes ao Sol, terminam as suas vidas como anãs brancas. Uma anã branca típica é tão massiva quanto o nosso Sol, mas com aproximadamente o tamanho da Terra. Isto coloca as anãs brancas entre os objetos mais densos que os cientistas conhecem, superadas apenas pelas estrelas de neutrões e pelos buracos negros. As anãs brancas permanecem estáveis até cerca das 1,4 massas solares," afirma Carles Badenes, membro da equipa e professor assistente do Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Pittsburgh, Pensilvânia, EUA.

"As anãs brancas perto deste limite estão à beira de uma explosão catastrófica. Só precisam de um pouco mais de massa. Até recentemente, os astrónomos pensavam que o modo mais provável de uma anã branca ganhar massa seria como companheira de uma estrela parecida com o Sol num sistema binário íntimo. Ao acumular matéria da companheira, a anã branca pode, ao longo de milhões de anos, ultrapassar o limite estável e explodir. É provável que a estrela companheira sobreviva ao evento, mas os astrónomos encontraram poucas evidências para tal, sugerindo a necessidade de um modelo alternativo. No cenário de fusão, a explosão é desencadeada por um par de anãs brancas com menos massa, cujas órbitas apertam ao longo do tempo até que eventualmente fundem-se e explodem.

"Nós podemos distinguir qual destes cenário é o responsável por um determinado remanescente de supernova através da contagem do níquel e do manganês na nuvem em expansão," afirma Brian Williams, astrofísico de Goddard. A explosão de uma única anã branca perto do seu limite de massa irá produzir valores significativamente diferentes desses elementos do que uma fusão. A equipa também mediu o ferro e o crómio, que são produzidos em todas explosões do Tipo Ia, como forma de padronizar os seus cálculos.

O estudo, publicado na edição de 12 de março da revista The Astrophysical Journal Letters, faz parte de um programa de pesquisa do Suzaku destinado a ajudar os astrónomos a compreender melhor a diversidade das supernovas do Tipo Ia, uma classe importante de explosão estelar usada para estudar o Universo distante. Este achado mostra que pelo menos algumas das supernovas do Tipo Ia devem ter companheiras estelares sobreviventes e a equipa salienta que a busca por estas estrelas deve continuar. Lançado no dia 10 de julho de 2005, o Suzaku foi desenvolvido pelo ISAS (Japanese Institute of Space and Astronautical Science), parte da JAXA, a agência espacial japonesa, em colaboração com a NASA e outras instituições japonesas e norte-americanas.
Fonte: Astronomia OnLine

Todos os outros planetas do sistema solar caberiam no espaço entre a Terra e a lua

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Aqui está um fato interessante que você talvez nunca imaginou ou parou para pensar: dá para colocar todos os 7 outros planetas do sistema solar no espaço que há entre a Terra e a lua. A distância máxima entre a Terra e seu satélite é de 405.500 km. O diâmetro equatorial de Mercúrio é 4.879 km, Vênus tem 12.104 km, Marte 6.792 km, Júpiter 142.984 km, Saturno 120.536 km, Urano 51.118 km e Netuno 49.528 km. Somando tudo, dá 387.941 km. Claro que esta conta só funciona perto do apogeu lunar porque, em média, a distância entre a Terra e a lua é de 384.400 km. No perigeu, a lua está a “meros” 363.300 km. Aposto que você não sabia que cabia tanta coisa entre a lua e a Terra.
Fontes: Hypescience.com

LHC é religado depois de dois anos

LHC é religado depois de dois anos

O Grande Colisor de Hádrons (LHC) foi religado, com prótons circulando no túnel de 27 km do acelerador pela primeira vez desde 2013. A parada técnica foi feita para uma atualização tecnológica, na tentativa de alcançar os níveis de energia previstos em seu projeto inicial. Quando ficou pronto, em 2009, o maior laboratório já construído pelo homem teve problemas de curtos-circuitos em seus magnetos supercondutores.

A descoberta de que os núcleos dos átomos têm formato de pera foi uma das últimas sinalizações de uma Nova Física.[Imagem: Liam Gaffney/Peter Butler/Universidade de Liverpool]

Mesmo depois dos consertos, ficou claro que não seria seguro atingir as energias de 14 teraelétron-Volts (TeV) previstas no projeto inicial. O resultado é que, desde então, o LHC operou com apenas metade da energia prevista inicialmente. Mas isso não impediu que o experimento detectasse o Bóson de Higgs, uma das últimas peças que faltavam para completar o chamado Modelo Padrão da física.

Acelera LHC

Agora, com a atualização tecnológica, a expectativa é que o acelerador possa atingir pelo menos 13 TeV, aproximando-se da sua meta inicial. Para os supersticiosos, as expectativas são boas: da mesma forma que no acionamento inicial, o religamento do LHC apresentou problemas também desta vez, com um curto-circuito atrasando o início dos experimentos em algumas semanas - se, daquela vez, ele revelou o Bóson de Higgs, agora espera-se que ele revele algo mais. Na verdade, há um certo desconforto entre os físicos, que esperavam que este que é o maior e o mais caro experimento científico da história trouxesse alguma novidade que fosse além das teorias físicas atuais - a tão esperada "Nova Física".
Fonte: Inovação Tecnológica

Descobertas moléculas orgânicas complexas num sistema estelar bebê

Pistas indicam que os blocos constituintes da química da vida são universais
Concepção artística do disco protoplanetário que rodeia a jovem estrela MWC 480. O ALMA detectou a molécula orgânica complexa de cianeto de metila nas regiões periféricas do disco, numa zona onde se pensa que os cometas se formam. Esta é mais uma indicação de que a química orgânica complexa e potencialmente as condições necessárias ao desenvolvimento da vida são universais.Crédito:B. Saxton (NRAO/AUI/NSF)

Astrônomos detectaram pela primeira vez a presença de moléculas orgânicas complexas, os blocos constituintes da vida, num disco protoplanetário que rodeia uma estrela jovem. A descoberta, feita com o auxílio do Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), confirma que as condições que deram origem à Terra e ao Sol não são únicas no Universo. Os resultados serão publicados na revista Nature a 9 de abril de 2015. As novas observações do ALMA revelam que o disco protoplanetário que rodeia a estrela jovem MWC 480 contém enormes quantidades de cianeto de metila ou acetonitrila (CH3CN), uma molécula complexa baseada no carbono. Encontrou-se em torno de MWC 480 cianeto de metila em quantidade suficiente para encher todos os oceanos da Terra.

Tanto esta molécula como a sua prima mais simples, o
cianeto de hidrogênio (HCN), foram encontradas nas regiões periféricas mais frias do disco recém formado da estrela, numa região que os astrônomos pensam ser análoga ao Cinturão de Kuiper - o reino dos planetesimais gelados e dos cometas no nosso Sistema Solar, situado depois da órbita de Netuno. Os cometas retêm informação inalterada da química primordial do Sistema Solar, do período da formação planetária. Pensa-se que os cometas e asteroides do Sistema Solar exterior trouxeram para a jovem Terra água e moléculas orgânicas, o que ajudou a preparar o terreno para o desenvolvimento da vida primordial.

Os estudos de cometas e asteroides mostram que a nebulosa que deu origem ao Sol e aos planetas era rica em água e componentes orgânicos complexos”, diz Karin Öberg, astrônoma no Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, Cambridge, Massachusetts, EUA e autora principal do artigo científico que descreve estes resultados. Temos agora mais evidências de que a mesma química existe noutros lugares do Universo, em regiões que poderão eventualmente formar sistemas solares parecidos ao nosso”. Isto é particularmente intrigante, diz Öberg, uma vez que as moléculas encontradas em MWC 480 têm concentrações semelhantes às dos cometas do Sistema Solar.

A estrela MWC 480, que tem cerca de duas vezes a massa do Sol, situa-se a 455 anos-luz de distância na região de formação estelar do Touro. O disco que a rodeia encontra-se numa fase inicial de evolução - tendo coalescido recentemente a partir de uma nebulosa fria e escura de gás e poeira. Estudos feitos com o ALMA e com outros telescópios ainda não detectaram nenhum sinal óbvio de formação planetária no disco, embora observações a resoluções mais elevadas possam eventualmente revelar estruturas semelhantes às da estrela
HL Tauri, a qual é essencialmente da mesma idade. Os astrônomos sabem já há algum tempo que as nuvens interestelares frias e escuras são fábricas muito eficientes de formação de moléculas orgânicas complexas  - incluindo um grupo de moléculas conhecidas por cianetos.

Os cianetos, e mais particularmente o cianeto de metila, são importantes porque contêm ligações carbono-nitrogênio, as quais são essenciais à formação de aminoácidos, a base das proteínas e os blocos constituintes da vida. Até agora, não era no entanto claro se estas mesmas moléculas orgânicas complexas se formariam de forma natural e sobreviveriam ao ambiente energético de um novo sistema estelar em formação, onde choques e radiação podem facilmente quebrar as ligações químicas.
Tirando o máximo partido da sensibilidade do ALMA, os astrônomos puderam verificar nestas últimas observações que estas moléculas não só sobrevivem nestes ambientes como também prosperam. Um aspecto importante é que as moléculas detectadas pelo ALMA são muito mais abundantes do que as descobertas em nuvens interestelares. Este fato mostra que os discos protoplanetários são extremamente eficientes na formação de moléculas orgânicas complexas e que as conseguem formar em escalas de tempo relativamente curtas. À medida que o sistema continua a evoluir, os astrônomos pensam que é provável que as moléculas orgânicas existentes nos cometas e noutros corpos gelados sejam levadas para meios mais propícios ao desenvolvimento de vida.

A partir do estudo de exoplanetas, sabemos que o Sistema Solar não é único no seu número de planetas ou em abundância de água”, conclui Öberg.Sabemos agora que não somos únicos em química orgânica. Uma vez mais, aprendemos que não somos especiais. Do ponto de vista da vida no Universo, isto são excelentes notícias”.
Fonte: ESO

Astrónomos observam saga de formação de estrelas maciças

Imagens de W75N(B)-VLA2 obtidas pelo VLA: topo, 1996; em baixo, 2014.
Crédito: Carrasco-Gonzalez, et a., NRAO/AUI/NSF


Um par de imagens de uma estrela jovem, separadas por 18 anos, revelaram uma diferença dramática que está a fornecer aos astrónomos um olhar único e em "tempo real" sobre a forma como as estrelas maciças se desenvolvem durante os primeiros estágios de formação. Os astrónomos usaram o VLA (Karl G. Jansky Very Large Array) do NSF (National Science Foundation) para estudar uma estrela jovem e maciça chamada W75N(B)-VLA2, a cerca de 4200 anos-luz da Terra. Compararam uma imagem obtida em 2014 com uma imagem mais antiga obtida em 1996. A comparação é notável," afirma Carlos Carrasco-Gonzalez do Centro de Radioastronomia e Astrofísica da Universidade Nacional Autónoma do México, líder da equipa de pesquisa.

A imagem obtida em 1996 mostra uma região compacta de ventos quentes e ionizados ejetados pela estrela jovem. A imagem de 2014 mostra que os ventos expulsos deformaram-se num fluxo distintamente alongado. Estamos a observar esta mudança dramática em tempo real, de modo que este objeto está fornecendo uma excelente oportunidade para assistir, ao longo dos próximos anos, aos estágios iniciais da sua formação," explica Carrasco-Gonzalez. Os cientistas acreditam que a jovem estrela está a formar-se num ambiente denso e gasoso, e que está rodeada por um toro empoeirado e em forma de donut. A estrela tem períodos em que expele ventos ionizados e quentes durante vários anos.
Impressão de artista do desenvolvimento de W75N(B)-VLA2. À esquerda, o vento quente da estrela expande-se de forma quase esférica, observado em 1996. À direita, observado em 2014, o vento quente foi deformado pelo encontro com um toro poeirento e em forma de donut em redor da estrela e aparece agora alongado. Crédito: Bill Saxton, NRAO/AUI/NSF

Ao início, o vento pode expandir-se em todas as direções e forma assim uma concha esférica em redor da estrela. Mais tarde, o vento bate no toro poeirento, diminuindo de velocidade. O vento expande-se para fora nos polos do toro, onde há menos resistência, move-se mais rapidamente e resulta numa forma alongada de escoamento. No espaço de apenas 18 anos, vimos exatamente o que tínhamos previsto," comenta Carrasco-Gonzalez. Existem modelos teóricos desenvolvidos para explicar por que a expansão quase esférica destes fluxos são observados com estrelas jovens muito mais massivas que o Sol, quando são esperados fluxos mais estreitos e em forma de feixe com base em observações de estrelas parecidas com o Sol, menos maciças e em estágios semelhantes de desenvolvimento.

Estima-se que W75N(B)-VLA2 tenha cerca de 8 vezes a massa do Sol. Os fluxos mais uniformes são vistos em estrelas jovens e maciças durante os primeiros milhares de anos das suas vidas, a fase que se pensa que W75N(B)-VLA2 está a atravessar. A nossa compreensão de como as estrelas jovens e maciças se desenvolvem é muito menos completa do que a nossa compreensão de como estrelas semelhantes ao Sol se desenvolvem," afirma Carrasco-Gonzalez. "A observação das mudanças vai ser bastante positiva. Esperamos aprender muito com este objeto," acrescenta. Carrasco-Gonzalez trabalhou com uma equipa internacional de astrónomos do México, Países Baixos, Suécia, Espanha, Coreia e Japão. Os cientistas relataram a sua descoberta na revista Science.
Fonte: Astronomia OnLine


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