Somos poeira de estrelas? Estudo revê como a vida chegou aqui
Imortalizada por Carl Sagan — o
apresentador da série de TV Cosmos: uma viagem pessoal nos anos 1980 —, a frase
“somos feitos de poeira de estrelas” é muito mais do que uma mensagem poética.
Trata-se na verdade de um fato científico comprovado e um dos pilares da
astrofísica moderna.
Somos poeira de estrelas? Estudo revê como a vida chegou aqui
Nem é preciso ser cientista para entender que, se logo após o Big Bang o cosmos continha apenas 75% de hidrogênio e 25% de hélio, então elementos como o oxigênio que respiramos, o carbono que forma nosso DNA e o cálcio dos nossos ossos foram fabricados mais tarde nas “cozinhas do Universo”: as estrelas.
Agora, um estudo liderado por
pesquisadores da Universidade de Tecnologia Chalmers, na Suécia, levantou uma
importante questão: “A luz e a poeira estelar não são suficientes para
impulsionar os poderosos ventos das estrelas gigantes, responsáveis por
transportar os componentes básicos da
vida através da
nossa galáxia”, afirma o comunicado.
Em outras palavras, para que a
poeira estelar chegue à Terra — ou até mesmo forme a Terra — ela precisa
primeiro conseguir sair da estrela. E aí surge o primeiro grande obstáculo:
como são enormes, as estrelas têm uma gravidade muito forte que tenta puxar
tudo de volta para o centro.
Testando a teoria antiga em uma
estrela gigante vermelha chamada R Doradus, o estudo publicado recentemente na
revista Astronomy & Astrophysics conclui que “a poeira sozinha não consegue
impulsionar o vento nesta estrela e que mecanismos adicionais podem ser
necessários”.
Pequena e transparente: a poeira
de R Doradus desafia as leis do vento estelar
A compreensão da origem da vida
na Terra passa obrigatoriamente pela forma como as estrelas gigantes — as
fábricas de elementos químicos — alimentam seus ventos. Sem esses ventos, o
material da vida ficaria preso na estrela até ela morrer e se tornar uma anã
branca (como será o destino final de R Doradus), ou seja, nunca chegaria até
nós.
Até agora, a explicação teórica
desse fenômeno era simplista: a estrela fabrica átomos (carbono, oxigênio,
nitrogênio e outros), a luz da estrela (os fótons) bate nesses grãos como se
fossem bolas de bilhar, e esse impacto constante da luz empurra a poeira para
longe. Esta, por sua vez arrasta o gás junto, criando o vento.
Mas o estudo de R Doradus — uma
estrela gigante rica em oxigênio localizada a cerca de 192 anos-luz da Terra —
colocou em xeque essa visão tradicional. Utilizando o instrumento SPHERE/ZIMPOL
do Very Large Telescope (VLT), no Chile, a equipe obteve imagens de altíssima
resolução da luz polarizada refletida pela poeira ao redor da estrela.
Para os autores, há dois
problemas com a nossa vizinha estelar. O primeiro é a transparência: como a
poeira ao redor da estrela é composta de silicatos sem ferro e óxido de
alumínio, esses materiais têm baixa absorção de luz. Quase transparentes, eles
não absorvem energia suficiente para serem empurrados, tampouco são
impulsionados pelo espalhamento (reflexão) da luz.
Além disso, para que a luz possa
“bater e rebater” (espalhar), é fisicamente necessário que esses grãos tenham
um tamanho específico que, segundo a teoria anterior, deveria ser de pelo menos
0,3 micrômetro. Mas as medições atuais revelaram que eles são menores que isso,
com cerca de 0,1 micrômetro.
Quem trouxe a poeira de estrelas
que nos formou?
Combinando as observações com
simulações computacionais avançadas, “conseguimos, pela primeira vez, realizar
testes rigorosos para verificar se esses grãos de poeira conseguem sentir um
impulso suficientemente forte da luz da estrela", afirma o primeiro autor
do estudo, Thiébaut Schirmer, da Chalmers.
Os resultados são
desconcertantes: se a poeira é pequena demais para ser empurrada pela luz, mas
a estrela continua emitindo ventos e perdendo massa, então a teoria de que
"luz empurra poeira" não pode ser a causa principal do vento, ou pelo
menos não funciona por si só.
Isso significa que a teoria que
vínhamos usando por décadas para explicar como as estrelas espalham os
elementos da vida pelo espaço não funciona, na prática, para a estrela gigante
mais próxima de nós. Em outras palavras: ainda não conseguimos entender totalmente
como o material que nos forma saiu das estrelas.
Mas, para a alegria dos poetas, o
artigo atual não contesta a ideia de que "somos feitos de poeira de
estrelas". Na verdade, ele a reforça, mas torna a explicação de como essa
poeira chega até nós muito mais complexa e interessante, pois os astrônomos
foram forçados a buscar um plano B.
Pode ser que, para que o carbono
e o oxigênio da estrela cheguem a formar planetas e seres vivos, eles
necessitem de um “tranco”, que pode ser um processo caótico e turbulento. Isso
significa que a estrela pode estar fervendo (e emitindo bolhas), tendo pulsações
que funcionam como um trampolim, ou passando por surtos e explosões de poeira.
De qualquer forma, se o “estado
da arte” vigente até agora falhou com a estrela R Doradus (que é a mais fácil
de estudar), é muito provável que ele esteja errado ou incompleto para todas as
outras estrelas do mesmo tipo no Universo. Assim temos que voltar a pesquisar
qual foi o delivery que nos trouxe até aqui.
Msn.com

Comentários
Postar um comentário
Se você achou interessante essa postagem deixe seu comentario!