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O bombardeio cósmico

cassio barbosa

Os modelos de formação do Sistema Solar dizem que, assim que a nuvem protoestelar que formou o Sol se colapsou, também começou a formar os planetas. Com o Sol "aceso", ou seja, emitindo radiação, as regiões mais interiores dessa nuvem foram mais aquecidas que suas partes externas. Assim, o material volátil – como gelos de água, metano e gás carbônico, por exemplo –, foram evaporados. Essa parte da nebulosa se tornou seca e deu origem a planetas pequenos e rochosos: Mercúrio, Vênus, Terra e Marte. Nas partes externas, mais frias, esse gelo todo sobreviveu, o que facilitou o crescimento de corpos celestes que hoje são os planetas gigantes gasosos, como Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. No início havia muitos corpos diminutos, os planetesimais que, se chocando uns com os outros, foram crescendo e aumentando de massa, tornando-se finalmente planetas. Nem todos os planetesimais foram "usados" na formação de planetas e acabaram se juntando para formar asteroides e cometas, por exemplo, que estão ainda vagando pelo nosso Sistema Solar. Esses corpos eram muito mais numerosos no passado e os planetas sofreram intensos bombardeios durante um período relativamente longo de tempo, há 4,5 bilhões de anos. Os planetas gigantes tiveram um papel importante em limpar o Sistema Solar desses corpos, a maioria deve ter caído no Sol, mas muitos acertaram a Terra.

A história de formação de nosso planeta pode ser resumida assim, a fase inicial de formação com a acreção dos planetesimais, durante dezenas de milhões de anos. Depois um impacto gigantesco com um protoplaneta que teria formado a Lua e depois um período de bombardeio de asteroides gigantes, com tamanho entre dezenas e centenas de quilômetros durante bilhões de anos. Apesar do tamanho dos objetos e do longo período de bombardeio, estimativas recentes dão conta de que esses impactos somaram menos de 1% da massa atual da Terra. Podemos dizer que o último desses asteroides gigantes a atingir a Terra foi o que acabou com os dinossauros, há 65 milhões de anos atrás. E provavelmente era o menor deles...

Apesar de contribuir pouco com a massa final da Terra, esse período de intenso bombardeio teve um efeito profundo na evolução geológica do planeta recém-formado. Entre 4,5 e 4 bilhões de anos atrás, a superfície da Terra foi remoldada constantemente. Isso porque os impactos eram muito intensos, com objetos muito grandes, de modo que a cada evento boa parte da superfície terrestre derretia com o calor gerado. Com a repetição periódica dos choques, o desenvolvimento da vida fatalmente foi atrasado. Mesmo depois desse período, quando o bombardeio se tornou menos intenso, um impacto de um asteroide com mais de mil quilômetros de comprimento seria capaz de esterilizar todo o planeta. Um impacto mais modesto, com um objeto com a metade desse tamanho, seria suficiente para ferver todo o oceano da Terra. Apesar disso, os indícios de que já havia água em estado líquido há 4,3 bilhões de anos atrás são praticamente irrefutáveis.

Esse período geológico é chamado de período Hadeano e, apesar da violência e grande frequência de impactos, um novo estudo da NASA em colaboração com diversos outros institutos mostra que entre um evento e outro, havia tempo para que alguma forma de vida se desenvolvesse em pequenos nichos. Locais como o fundo dos oceanos, ou em regiões da Terra menos sujeita ao bombardeio, poderiam dar condições não só para a vida surgir, mas também de se sustentar por alguns milhares de anos. Até que um impacto devastador em escala global esterilizasse tudo de novo. Com a diminuição da frequência e da intensidade dos impactos, a vida se desenvolveu de maneira mais tranquila e se espalhou por toda a Terra.

Esse estudo sobre o bombardeio de asteroides, liderado por Simone Marchi, do Instituto de Pesquisa do Sudoeste, EUA, foi publicado na revista Nature e produziu um mapa muito interessante. Nessa versão animada é possível ver o tamanho do impacto e, através de sua cor, o momento em que ele ocorreu durante o período Hadeano. Os dados para esse estudo vieram da análise de rochas terrestres e lunares. Aliás, basta olhar para a Lua cheia para ver os efeitos dessa época de impactos: as crateras produzidas durante esse tempo todo estão lá, as maiores, as mais antigas. Dá para notar esse mesmo comportamento nesse mapa animado do artigo, com os maiores impactos ocorrendo há mais tempo, codificado na cor vermelha, chegando aos mais recentes e menores, codificados em azul.

Os resultados desse trabalho, que na verdade é um novo modelo para entender esse período de formação da Terra, devem dar mais subsídio para entender como a vida surgiu e se manteve num ambiente tão inóspito. Para que ela pudesse sobreviver e se espalhar, certamente as formas primitivas precisaram ser mais resistentes ao calor do que se imaginava até agora.
Fonte: Cássio Barbosa  - G1

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