O buraco negro da Via Láctea esconde um passado explosivo
O buraco negro supermassivo da
nossa Galáxia é famoso por ser um dos mais fracos do Universo. Os resultados de
um novo telescópio espacial mostram que pode nem sempre ter sido esse o caso.
Uma imagem infravermelha de
Sagitário B2, uma nuvem molecular no Centro Galáctico obtida com o Telescópio
Espacial James Webb, que é de um tipo semelhante às nuvens estudadas pela
equipa da Universidade do Estado do Michigan. Crédito: NASA, ESA, CSA, STScI,
A. Ginsburg (Universidade da Flórida), N. Budaiev (Universidade da Flórida), T.
Yoo (Universidade da Flórida); processamento de imagem - A. Pagan (STScI)
Sagitário A*, localizado no
centro da Via Láctea, parece ter-se inflamado dramaticamente algures nas
últimas centenas de anos, de acordo com as emissões de raios X observadas pelo
telescópio espacial XRISM. Estas descobertas surpreendentes revelam novos pormenores
sobre a evolução dos buracos negros supermassivos. Também ensinam aos
astrónomos lições sobre a história do nosso lar cósmico.
Stephen DiKerby, investigador da
Universidade do Estado do Michigan, EUA, trabalhou com uma equipa internacional
para medir os raios X provenientes de uma nuvem gigante de gás perto do centro
da Galáxia. A equipa examinou a nuvem com um detalhe incrível graças à
capacidade do XRISM de resolver a energia de cada fotão de raios X. As suas
descobertas oferecem fortes evidências de que a nuvem está a brilhar em
resposta a um surto passado de Sagitário A*.
Os resultados, publicados na
revista The Astrophysical Journal Letters, realçam a precisão laboratorial do
XRISM, mudando efetivamente o jogo da astronomia de raios X. O trabalho foi
efetuado em colaboração com Kumiko Nobukawa da Universidade de Kindai, em
Higashiosaka, Osaka, no Japão, e Masa Nobukawa da Universidade de Educação de
Nara, também no Japão.
"Nada na minha formação
profissional como astrónomo de raios X me tinha preparado para algo
assim", disse DiKerby, investigador pós-doutorado no laboratório do
professor assistente de física e astronomia Shuo Zhang. "Esta é uma nova e
excitante capacidade e uma nova caixa de ferramentas para desenvolver estas
técnicas".
Um buraco negro supermassivo é
exatamente como o termo o descreve - um buraco negro massivo, contendo milhões
ou milhares de milhões de massas solares de material, tão denso que nem a luz
consegue escapar. Todas as grandes galáxias têm um, embora os investigadores
ainda não saibam porquê.
Muitos buracos negros
supermassivos são brilhantes porque o gás à sua volta aquece e emite radiação
altamente energética. Em contraste, Sagitário A* quase não brilha. É um dos
buracos negros mais ténues conhecidos no Universo, apenas visível porque está muito
próximo da Terra.
Várias grandes nuvens moleculares
flutuam à volta de Sagitário A* e podem atuar como espelhos cósmicos,
refletindo os flashes de raios X do buraco negro. Os telescópios espaciais
anteriores conseguiram detetar estes lampejos, mas não com resolução energética
suficiente para examinar a sua estrutura fina ou determinar o que os produziu.
Um mapa maior do Centro Galáctico mostrando Sgr A* (o buraco negro supermassivo) e várias nuvens moleculares notáveis. Crédito: figura 3 de Mori et al. 2015
O XRISM mudou isso. O telescópio foi lançado em 2023 através de uma parceria entre a NASA e a JAXA. As suas primeiras observações são muito aguardadas porque representam uma grande melhoria em relação a todos os telescópios espaciais existentes em termos de resolução energética. A maioria dos telescópios espaciais de raios X consegue distinguir a energia de um fotão até cerca de uma parte em 10, ou mesmo 100. O XRISM consegue resolver uma parte em 1000. As novas imagens são como passar de uma Polaroid para uma imagem tecnicolor de alta-definição.
DiKerby usou esta visão nítida
para fazer zoom em duas linhas de emissão de raios X extremamente estreitas
provenientes de uma das nuvens moleculares. Medindo as suas energias e formas
com uma precisão inovadora, conseguiu determinar o movimento da nuvem e
compará-lo com observações rádio anteriores. Também examinou características
subtis no espetro para testar duas explicações diferentes para o brilho da
nuvem.
Esses pormenores excluíram a
ideia de que os raios cósmicos eram os responsáveis e, em vez disso, mostraram
que a nuvem está a refletir um surto de raios X de Sagitário A* - efetivamente
um "eco de luz" do passado. Estudando várias nuvens a diferentes
distâncias do buraco negro, os astrónomos podem reconstruir uma linha temporal
destas antigas erupções, tal como se usassem ecos atrasados para mapear a forma
de uma gruta.
"Esta medição notável mostra
quão poderoso o XRISM é a descobrir a história oculta do centro da nossa
Galáxia", disse Zhang. "Ao resolver as linhas de ferro com tal
clareza, podemos agora ler a atividade passada do Centro Galáctico com um detalhe
sem precedentes".
Os dados mostram pela primeira
vez como a resolução energética do XRISM pode medir características
extremamente finas no Universo. A equipa espera que o telescópio abra muitas
novas vias de descoberta.
"Somos apenas os cientistas
sortudos que conseguiram resolver os problemas de manuseamento destes dados
desta forma completamente nova", disse DiKerby. "Uma das coisas que
mais gosto, em ser astrónomo, é saber que sou o primeiro ser humano a ver esta
parte do céu desta forma".
Astronomia OnLine


Comentários
Postar um comentário
Se você achou interessante essa postagem deixe seu comentario!