Estudo explica por que as galáxias mais massivas do universo jovem pararam de formar estrelas precocemente
Por José Tadeu Arantes - Agência FAPESP | As observações astronômicas mostram que as galáxias mais massivas do Universo jovem, formadas aproximadamente 3 a 4 bilhões de anos após o Big Bang, pararam de produzir estrelas muito cedo na história cósmica: cerca de 1 bilhão de anos depois de começarem.
Esse comportamento, bastante estranho, vinha
intrigando os especialistas da área. Para efeito de comparação, nossa galáxia,
a Via Láctea, cuja idade é equivalente à do próprio Universo, continua
produzindo estrelas ainda
que com uma taxa baixa de formação mesmo 13,5 bilhões de anos depois de constituída.
Um estudo realizado no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) com parcerias internacionais, publicado no periódico Astronomy & Astrophysics, propõe uma resposta consistente para o problema.
Enfocamos duas populações
aparentemente distintas: galáxias intensamente formadoras de estrelas, ricas em
poeira [dusty star-forming galaxies, DSFGs], e galáxias massivas quiescentes,
sem atividade de formação estelar [massive quiescent galaxies, MQs], afirma
Laerte Sodré Junior,
professor titular aposentado, ex-diretor do IAG-USP e orientador de doutorado
do autor principal do estudo, Pablo Araya-Araya.
As DSFGs são extremamente ativas,
formando estrelas a taxas de até 500 massas solares por ano (comparativamente,
a Via Láctea forma cerca de uma massa solar por ano). Envoltas em densas nuvens
de poeira, são praticamente invisíveis no óptico (faixa do espectro
eletromagnético com comprimentos de onda de 380 a 780 nanômetros). Mas brilham
intensamente no submilimétrico (de 0,2 a 1 milímetro) e no infravermelho médio
(de 4.9 a 28.8 mícrons).
Por isso, foram detectadas em
escala de milhares pelos radiotelescópios Atacama Large
Millimeter/Submillimeter Array (Alma), que operam no
milimétrico-submilimétrico. Parte delas teve suas estruturas espaciais e
composições estelares caracterizadas pelo Telescópio Espacial James Webb, que
opera no infravermelho.
As MQs constituem um grande
desafio para os modelos de formação de galáxias, explica Sodré. Formaram-se e
pararam de produzir estrelas rapidamente, dentro dos primeiros bilhões de anos da história do Universo, diz.
Para investigar a conexão entre
as duas populações, os pesquisadores utilizaram um modelo semianalítico de
formação de galáxias, rastreando suas trajetórias evolutivas em redshifts de 2
a 4 isto é, quando
o universo tinha cerca de 3 a 4 bilhões de
anos. Vale lembrar que redshifts são desvios
da radiação
eletromagnética para
comprimentos de onda maiores, em decorrência da
expansão do
Universo.
O resultado mostra que entre 86%
e 96% das MQs passaram antes por uma fase como galáxias formadoras de estrelas
ricas em poeira (DSFGs). Ou seja, praticamente todas essas galáxias inertes
tiveram um passado extremamente ativo. Mas nem todas as DSFGs seguem esse
destino.
A explicação proposta pelo estudo
é a de que cada galáxia progenitora de uma MQ teve fusão precoce e violenta com
outra galáxia de massa semelhante. Esse evento catastrófico teria desencadeado
dois processos simultâneos: um surto extremo de formação estelar e o rápido
crescimento de um buraco negro supermassivo na região central. A fusão das duas galáxias concentrou grandes
quantidades de gás no núcleo, desencadeando
simultaneamente o surto extremo de formação estelar
e a alimentação intensa
do buraco negro supermassivo, resume Sodré.
Nesse processo, o gás frio é
rapidamente consumido, enquanto a energia liberada pelo núcleo ativo aquece o
gás do halo ao redor e impede que ele esfrie e seja reincorporado à galáxia,
bloqueando o suprimento de matéria-prima para novas estrelas e interrompendo a
formação estelar em menos de 1 bilhão de anos, explica o cientista.
Em contraste, a maior parte das
galáxias formadoras de estrelas e poeira cresce de forma mais gradual, por
processos de longa duração, com fusões relevantes ocorrendo apenas em épocas
posteriores, o que resulta em um consumo mais lento do gás e em um eventual
apagamento da formação estelar tardio, observado em redshifts menores.
Operações recentes do Telescópio
Espacial James Webb têm contribuído para o mapeamento das DSFGs. Ao mesmo
tempo, revelaram um número maior do que se esperava de galáxias massivas
quiescentes no Universo jovem.
O modelo proposto ainda não
resolve completamente o problema, pois subsistem discrepâncias entre previsões
e observações. Estamos observando muito mais galáxias com emissões submilimétricas do que podíamos prever, admite Sodré.
Mesmo assim, o estudo oferece uma
estrutura coerente para explicar a evolução das DSFGs para as MQs, a partir do
modelo de fusão de galáxias, surto de formação estelar e constituição de buraco
negro supermassivo. O avanço nessa área dependerá de modelos teóricos mais
refinados, simulações numéricas mais realistas e novas observações.
Instrumentos como o Giant Magellan Telescope (GMT) em construção no Observatório de Las Campanas, no Atacama
chileno, sob um dos céus mais
secos e estáveis do
planeta deverão desempenhar papel
crucial nesse processo.
Com seu espelho coletor de 24,5
metros, o GMT poderá produzir imagens com resoluções três a quatro vezes
melhores do que as do James Webb, sublinha Sodré. A expectativa é a de que o equipamento esteja
operacional em meados da próxima década.
O trabalho foi apoiado pela
FAPESP por meio de auxílio ao projeto especial Explorando o Universo, da formação de galáxias aos planetas tipo-terra, com
o GMT e de bolsa de doutorado para Marcelo Vicentin, que também participou do estudo.
Msn.com

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