Cientistas flagram buraco negro faminto arrastando o tecido do espaço-tempo
Há fenômenos cósmicos que são
barulhentos, mas não necessariamente informativos: explosões podem ser
espetaculares e, ainda assim, ambíguas. O que chama atenção no evento
AT2020afhd é o oposto: um comportamento repetitivo e coerente, como um
metrônomo astrofísico.
A arte conceitual retrata o disco de acreção em torno de um buraco negro, destacando que a zona interna do disco sofre precessão. Crédito: ESA/ATG medialab.
Nesse caso, a equipe identificou mudanças rítmicas em raios X e em rádio que sugerem uma oscilação conjunta do disco de acreção e do jato, repetindo em torno de 20 dias. Um ritmo assim ajuda a separar “clima” de “mecânica”: em vez de turbulência aleatória, aparece uma dinâmica com assinatura própria.
Quem pensa em buraco negro como
“aspirador cósmico” perde metade da história. A acreção real é desordenada, e
parte do material pode ser expelida, não engolida, o que transforma esses
sistemas em laboratórios naturais para gravidade, plasma e campos magnéticos,
tudo ao mesmo tempo.
Quando o espaço-tempo pega
carona no giro
A explicação física por trás do
balanço tem raízes diretas na relatividade geral. Albert Einstein, em 1915,
descreveu gravidade como geometria do espaço e do tempo, e não como uma força
invisível de contato.
Em 1918, Josef Lense e Hans
Thirring colocaram um tempero adicional nessa geometria: se o objeto massivo
estiver girando, ele pode produzir um tipo de “arrasto” que faz o espaço-tempo
vizinho se comportar como algo parcialmente puxado junto. No jargão, isso vira
precessão de Lense-Thirring quando o disco inclinado “varre” orientações ao
longo do tempo.
É útil lembrar que essa não é uma
ideia só de quadro-negro. Experimentos e missões tentaram medir efeitos de
frame dragging perto da Terra, como o Gravity Probe B, que reportou resultados
finais para o componente de arrasto com incertezas significativamente maiores
do que para o efeito geodésico, mostrando como o sinal é sutil em ambientes
menos extremos.
O caso AT2020afhd visto em
dois “sabores” de luz
O que aconteceu no AT2020afhd foi
um tipo de tragédia orbital: uma estrela passou perto demais e foi despedaçada
pelas forças de maré do buraco negro, formando um disco de restos estelares ao
redor do centro. Em português claro, é espaguetificação, só que sem o prato no
final.
Para rastrear a oscilação, a
equipe combinou dados do Neil Gehrels Swift Observatory, que observa fenômenos
transientes e opera em múltiplas bandas (incluindo raios X), com observações de
rádio do Karl G. Jansky Very Large Array, um interferômetro de referência para
radioastronomia. Essa mistura de instrumentos evita que a conclusão dependa de
um único tipo de medida.
Cosimo Inserra, pesquisador da
Cardiff University, descreveu o resultado como uma evidência especialmente
convincente da precessão e como uma forma de aprender mais sobre eventos de
ruptura por maré e sobre a física de acreção. No fundo, é como se o sistema
tivesse revelado, sem querer, o ângulo e o compasso da própria dança.
Jatos, bagunça e uma pista
sobre o “motor” oculto
Quando um buraco negro está se
alimentando, ele não é um gourmet discreto: parte do gás pode ser redirecionada
e lançada em estruturas colimadas, os jatos de plasma que podem atingir
velocidades relativísticas. A origem detalhada desses jatos ainda é tema de
pesquisa, mas a presença de campos magnéticos e a rotação do sistema são peças
quase sempre presentes.
O estudo foi publicado em Science
Advances , e um ponto metodológico relevante é que a coprecessão disco-jato
pode virar um instrumento indireto para inferir parâmetros do sistema,
inclusive pistas sobre o spin. Isso é valioso porque spin é uma grandeza difícil
de medir e, ao mesmo tempo, crítica para entender eficiência de acreção e
formação de jatos.
Como nota de “higiene
científica”, este tipo de resultado também ganha força quando conversa com
outras linhas: o próprio conceito de “tecido do espaço-tempo” e de arrasto de
quadro já aparece em diferentes contextos astrofísicos, e agora surge em um cenário
onde o relógio natural do sistema ajuda a reduzir ambiguidades.
No fim, há um contraste que me
parece inevitavel: para nós, Homo sapiens, buracos negros são sinônimo de “não
dá para ver”, mas os arredores deles continuam virando uma espécie de painel de
controle do universo, cheio de botões que a relatividade prometeu e que a
observação, aos poucos, confirma.
Hypescience.com

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