Estrelas escuras podem resolver três dos maiores enigmas cósmicos revelados pelo telescópio James Webb
O Telescópio Espacial James Webb
(James Webb) tem surpreendido a comunidade científica ao observar o universo
muito jovem, logo após o Big Bang, e revelar objetos que não se encaixam
facilmente nas teorias tradicionais de formação de estrelas e galáxias
UHZ1, uma galáxia recordista localizada a 13,2 bilhões de anos-luz de distância, foi observada quando o universo tinha apenas 3% de sua idade atual. UHZ1 é intrigante por abrigar um buraco negro supermassivo que não poderia ter sido semeado nem mesmo por estrelas comuns, considerando sua massa e o pouco tempo disponível para seu crescimento. Assim, acredita-se que UHZ1 seja uma evidência da existência de estrelas supermassivas que, ao colapsarem, geram o buraco negro supermassivo que alimenta o quasar em seu centro. Neste estudo, os autores demonstram como UHZ1 poderia abrigar um buraco negro supermassivo semeado pelo colapso de uma estrela escura. Os mecanismos identificados pelos autores não se restringem a UHZ1 – eles fornecem um caminho para explicar galáxias com buracos negros supermassivos, das quais UHZ1 é um exemplo proeminente. Crédito: Raios-X: NASA/CXC/SAO/Ákos Bogdán; Infravermelho: NASA/ESA/CSA/STScI; Processamento de imagem: NASA/CXC/SAO/L. Frattare e K. Arcand
Um novo estudo, liderado pelo
físico Cosmin Ilie, da Universidade Colgate, em colaboração com outros
pesquisadores, sugere que um tipo muito especial de objeto hipotético – as
chamadas estrelas escuras (dark stars) – pode explicar, de forma elegante e unificada,
três dos maiores mistérios encontrados nessas observações.
De acordo com o entendimento
atual, as primeiras estrelas nasceram algumas centenas de milhões de anos após
o Big Bang, quando nuvens de hidrogênio e hélio se resfriaram e colapsaram
dentro de regiões muito densas de matéria escura, chamadas microhalos. Porém,
em certas condições especiais do universo primordial, pode ter surgido um tipo
completamente diferente de estrela: as estrelas escuras.
Diferentemente das estrelas
normais, que brilham por causa da fusão nuclear, essas estrelas gigantescas
obteriam sua energia da aniquilação de partículas de matéria escura que cairiam
em seu interior. Isso permitiria que elas crescessem a tamanhos extraordinários
e, ao final de sua vida, se transformassem naturalmente nas sementes dos
buracos negros supermassivos que vemos hoje no centro das galáxias.
As observações do James Webb têm
mostrado justamente fenômenos que desafiam os modelos antigos. Um primeiro
mistério são as chamadas galáxias “monstros azuis? (blue monsters): objetos
incrivelmente brilhantes, muito compactos e quase sem poeira, que simplesmente
não deveriam existir tão cedo no universo de acordo com as simulações feitas
antes do lançamento do telescópio.
O segundo enigma está relacionado
aos buracos negros supermassivos. O James Webb encontrou evidências de buracos
negros muito massivos já nos primeiros quasares, objetos extremamente distantes
e luminosos. Esses buracos negros parecem grandes demais e ter surgido cedo
demais, o que exige sementes iniciais muito maiores do que as previstas pelas
teorias convencionais – exatamente o tipo de semente que uma estrela escura
poderia deixar ao colapsar.
Por fim, o terceiro mistério são
os objetos apelidados de “pequenos pontos vermelhos? (little red dots).
Trata-se de fontes muito compactas, sem poeira e que, de forma surpreendente,
emitem pouca ou nenhuma radiação de raios X, algo difícil de explicar com
estrelas ou galáxias comuns.
Os autores do estudo argumentam
que essas três características aparentemente desconexas – galáxias
excessivamente brilhantes e compactas, buracos negros supermassivos precoces e
os misteriosos pontos vermelhos – são, na verdade, consequências naturais da
existência de estrelas escuras no amanhecer cósmico.
Embora ainda não tenhamos
confirmação direta da existência dessas estrelas, evidências vêm se acumulando.
Estudos anteriores, publicados em 2023 e 2025, já haviam identificado
candidatos fotométricos e espectroscópicos. A análise mais recente apresentada
no novo trabalho mostra assinaturas espectroscópicas muito características
(como linhas de absorção de hélio consideradas “provas quase definitivas”) em
objetos observados pelo James Webb, como JADES-GS-z13-0 e JADES-GS-z14-0.
Se confirmadas, as estrelas
escuras não seriam apenas uma solução para os quebra-cabeças do James Webb.
Elas também representariam uma das formas mais promissoras de estudar
diretamente as propriedades da misteriosa matéria escura, complementando os
grandes experimentos feitos em laboratórios aqui na Terra.
Em resumo, o que inicialmente
pareciam ser anomalias graves nos modelos de formação do universo jovem talvez
sejam, na verdade, pistas de que a natureza colocou em cena, logo no começo de
tudo, um tipo extraordinário de estrela alimentada pela própria matéria escura.
Terrarara.com.br

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