Telescópio Webb flagra planeta recordista brotando duas caudas enormes

Em algum ponto a cerca de 880 anos-luz da Terra, um gigante gasoso chamado WASP-121b (apelidado de Tylos) está literalmente perdendo parte do que o envolve: sua atmosfera. O que torna este caso especial não é só o vazamento, mas o desenho: duas caudas gigantes de hélio, como se o planeta estivesse deixando rastros duplos no próprio caminho ao redor da estrela. 

A equipe liderada por Romain Allart, astrônomo do Trottier Institute for Research on Exoplanets (Université de Montréal), acompanhou o fenômeno por tempo suficiente para ver a “história completa” de uma órbita. Em vez de pegar só um recorte durante o trânsito, o  telescópio registrou o vazamento por quase 37 horas seguidas, tempo que cobre mais de uma volta do planeta.

O estudo saiu na revista Nature Communications e, na prática, coloca um desafio direto para os modelos: sabemos simular bem uma cauda, mas duas, apontando para direções diferentes, é outro jogo.

O planeta que faz um ano em 30 horas

WASP-121b fica tão perto de sua estrela que completa uma volta em cerca de 30 horas, um “ano” que caberia em um fim de semana corrido. Ele é um daqueles mundos em que a proximidade não é romantica: a radiação aquece camadas altas da atmosfera a temperaturas extremas e empurra gases leves para fora, aproximadamante como vapor escapando de uma panela sob pressão.

Esse tipo de mundo entra na família dos exoplanetas que chamamos de gigantes gasosos “colados” na estrela. Em linguagem simples: não são planetas “de chão firme”; são bolas enormes de gás, e o lado de fora pode ser esculpido pela luz e pelo vento estelar ao longo do tempo.

No caso de Tylos, o rótulo comum é “Júpiter quente”, e aqui “quente quente” não é figura de linguagem: a estrela fornece energia demais, e o planeta paga com instabilidade atmosférica.

Como o Webb enxerga um vazamento invisível

Para observar isso os astrônomos não “fotografam” o gás como uma nuvem comum; eles procuram uma assinatura no espectro. O truque é usar o hélio como marcador, porque certas linhas no infravermelho ficam mais fáceis de detectar quando o gás está escapando e se espalhando em volta do planeta.

O James Webb, com instrumentos sensíveis no infravermelho, consegue perceber quando a luz da estrela atravessa essa névoa e “some um pedacinho” em comprimentos de onda específicos. É o tipo de medição em que o telescópio James Webb se torna quase uma balança: não pesa o gás, mas revela sua presença pelo que ele bloqueia. 

A observação contínua é a parte que muda o patamar: em vez de um recorte de poucas horas, dá para seguir a evolução ao longo da órbita inteira e ver se o vazamento liga, desliga, muda de direção, engrossa ou afina. 

Duas caudas, um quebra-cabeça em 3D

O achado mais estranho é geométrico: os dados sugerem duas estruturas distintas, uma “atrás” do planeta e outra “à frente”, ambas gigantes. Em termos práticos, isso significa que o gás não está só sendo soprando para longe; ele está sendo moldado por forças diferentes ao mesmo tempo.

Por que duas? Uma explicação plausível mistura empurrões e puxões: radiação e vento estelar tendem a empurrar material para trás, enquanto a gravidade e a dinâmica orbital podem curvar parte do fluxo de outro jeito. Só que as simulacões tradicionais lidam melhor com um rastro dominante, e não com um par de caudas competindo no mesmo sistema.

O melhor jeito de imaginar é como tráfego em um trevo rodoviário: você pode prever a fila de um acesso principal, mas quando dois acessos despejam carros ao mesmo tempo, em ângulos diferentes, o mapa fica mais complexo. Em certos momentos, na órbita se curva a cauda e o que parecia “simples vazamento” vira dinâmica tridimensional.

Por que isso importa para a história dos planetas

“Perder atmosfera” não é um detalhe estético. Em escalas longas, o escape pode alterar tamanho e densidade de um planeta, mudando o que ele é de fato.

Esse tema já aparece em outros contextos de perda atmosférica: quando a atmosfera começa a ir embora, o planeta planeta pode se transformar lentamente, e algumas hipóteses falam até em deixar para trás um núcleo mais exposto em casos extremos.

O valor maior do caso Tylos é metodológico: quando o Webb troca o instantâneo por um filme, ele dá uma régua para calibrar modelos 3D e melhorar previsões de evoluçao planetária em sistemas extremos. Um paralelo útil é meteorologia: não basta ver uma nuvem uma vez; você precisa acompanhar o ciclo, o vento, a persistência.

Se eu tivesse de guardar um único ponto, seria este: observações longas não só “confirmam” teorias; elas expõem a coreografia real do sistema, e essa diferença costuma ser onde a ciência dá seus saltos mais interessantes.

Hypescience.com

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