O Universo é mais antigo do que pensamos? Parte 1: O Relógio Cosmológico
Esta é a Parte 1 de uma série
sobre a idade do universo.
Quando digo que o universo tem
13,77 bilhões de anos, soa bastante categórico. E não é só por causa dos
números depois da vírgula. Isso apenas torna a afirmação precisa (e temos muito
orgulho de termos alcançado esse nível de precisão, muito obrigado). Não, é a
extrema confiança que me permite sentar aqui, olhar nos seus olhos e dizer, sem
qualquer sombra de dúvida, que estimamos a idade do universo em 13,77 bilhões
de anos.
Mas... como? Como sabemos, de verdade, qual a idade do universo? E o que significa, afinal, o UNIVERSO inteiro ter uma idade?
Então vamos lá. No episódio de
hoje, vou explicar como calculamos a idade do universo e como chegamos a tanta
certeza disso. Depois, vou apresentar três possíveis desafios ao nosso método
de calcular a idade do universo.
E vou superar esses desafios com
a pura força da minha confiança.
E ciência. Principalmente
ciência.
Bem, primeira objeção: será que o
universo realmente pode ter um "relógio"? Tipo, a relatividade
especial, que é importante e bem testada há mais de um século, não afirma que
não existe um relógio universal? Quando voltamos muito no tempo, para a era
pré-Einstein, nossas concepções sobre a estrutura do universo estavam
enraizadas em Newton. Como os objetos sabem quando e onde interagir uns com os
outros? Para Newton, o que permitia isso era um relógio universal e uma regra
mestra, um conjunto de padrões pelos quais tudo o mais podia ser medido.
Não, não havia literalmente um
relógio gigante atrás de alguma nebulosa marcando o tempo cósmico, e não existe
um Escritório de Padrões e Medidas Universais que possui, sei lá, uma barra de
ouro que diz "isto é exatamente um metro, em relação ao qual todas as
outras medições serão feitas agora e para sempre".
É uma ideia conceitual, uma forma
de estruturar a matemática para que tudo se alinhe e faça sentido. Para Newton,
objetos e eventos não possuem um senso intrínseco de tempo ou espaço; eles
precisam depender de alguma entidade externa (vamos chamá-la de espaço-tempo
por conveniência, embora ele não a tenha concebido dessa forma) para saber onde
e quando estão em qualquer lugar e momento.
Então Einstein destruiu tudo
isso, como era de seu feitio. Ele disse, e até agora ele estava certo, que NÃO
existem relógios universais. NÃO existem réguas mestras. Cada objeto no
universo tem seu próprio sistema de referência único e especial, com sua própria
maneira especial de medir a passagem do tempo e as distâncias entre os objetos.
Isso soa... como um caos. E é
mesmo. Sob a relatividade restrita, a sincronização é uma piada, algo que pode
acontecer por breves instantes quando os objetos estão próximos uns dos outros.
Assim que se movem, tudo desaparece. Mas, como bom vendedor, o velho tio
Alberto apresentou a solução para o problema que ele mesmo criou: a matemática
da relatividade restrita, que nos ensina COMO traduzir um referencial para
outro. Não, nunca vamos concordar sobre a duração de um segundo ou a largura de
um metro, mas pelo menos temos os mecanismos para comparar nossas anotações com
as dos outros.
Então, se não existe um
governante ou relógio mestre no universo, se não há um referencial absoluto, se
cada pessoa e tudo tem sua própria versão da passagem do tempo, como podemos
afirmar com alguma certeza que o universo tem 13,77 anos? Isso não depende de
quem está fazendo a medição?
E a resposta é: não. A
relatividade restrita afirma que o universo não PRECISA ter um referencial
preferencial, uma escala absoluta específica. Mas isso não significa que NÃO
POSSA haver um.
Aí entra a relatividade geral,
que é como a relatividade restrita, mas com um diferencial. E esse diferencial
é a capacidade de descrever o comportamento do espaço-tempo quando as coisas
ficam realmente complexas. Complexas como, por exemplo, a evolução de todo o
universo.
Em cosmologia, nos deparamos com
um fato observacional direto: galáxias distantes parecem estar se afastando de
nós. Isso parece um problema complexo envolvendo gravidade e a natureza do
espaço-tempo, então recorremos à relatividade geral para nos ajudar a construir
um modelo do que está acontecendo. E o modelo mais simples e, simultaneamente,
mais abrangente (na física, gostamos de usar a palavra parcimonioso: o máximo
que podemos explicar com o modelo mais simples possível, ou seja, o quão
econômico podemos ser sem comprometer a qualidade) é chamado de métrica FLRW.
Essas letras representam
Friedmann, Lemaitre, Robertson e Walker, quatro pessoas que, no início do
século XX, reuniram toda a cosmologia em um único quadro coerente. E nesse
quadro, nesse modelo de como o universo funciona, faz-se uma distinção
fundamental que permite romper com a relatividade restrita: a matéria.
O universo está cheio de coisas.
Estrelas. Planetas. Suas meias perdidas. Há todo tipo de matéria por aí, mas
ela não está apenas parada, está em movimento. E está se movendo de uma maneira
muito particular: está se expandindo.
Com o passar do tempo, a matéria
no universo se expande, se torna mais rarefeita e esfria. Ahá! Isso nos dá uma
HISTÓRIA COMPARTILHADA. As épocas no universo são DIFERENTES. Ontem, o universo
era um pouco menor, um pouco mais denso e um pouco mais quente. Amanhã, o
cosmos será maior, mais rarefeito e mais frio.
Como o universo está em expansão,
a simetria é quebrada: o passado é diferente do futuro. E qualquer observador
no universo, não importa em qual galáxia viva, se for suficientemente
sofisticado para desenvolver a cosmologia e sua versão da métrica FLRM, chegará
à mesma conclusão, e todos concordarão que o universo era diferente no passado,
e serão capazes de calcular QUANTO diferente o universo era no passado, e a
partir daí calcular há quanto tempo ocorreu “o passado”.
O que significa que podemos
construir um relógio universal.
Continua…
Universetoday.com

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