Como os buracos negros geram campos magnéticos?
O disco ao redor de um buraco negro contém partículas carregadas, que geram correntes elétricas e campos magnéticos à medida que orbitam.
O Telescópio do Horizonte de Eventos (EHT) divulgou uma imagem polarizada do buraco negro supermassivo em M87 em 2021. As linhas indicam a estrutura do campo magnético no disco de acreção brilhante ao redor do buraco negro. Crédito: Colaboração EHT
À medida que os buracos negros se
alimentam, eles atraem matéria para um disco ao seu redor. A matéria que orbita
nesse disco é aquecida a temperaturas extremas e, assim, se transforma em
plasma — um estado da matéria no qual alguns elétrons estão separados de seus
átomos. Isso cria íons, ou seja, átomos que se tornam carregados porque o
número de elétrons e prótons deixa de ser o mesmo. Portanto, existem tanto íons
com carga positiva quanto elétrons com carga negativa nesse plasma. Conforme
essas partículas carregadas se movem, elas geram correntes elétricas, que
naturalmente levam à formação de campos magnéticos.
Elétrons girando em torno de
linhas de campo magnético produzem um tipo de emissão em radiofrequências
chamada radiação síncrotron, que observamos com o Telescópio do Horizonte de
Eventos (EHT). A radiação síncrotron é inerentemente polarizada: as ondas de
rádio oscilam em uma direção específica, determinada pela geometria da linha de
campo magnético em torno da qual o elétron se movia quando emitiu essa
radiação. Ao obter imagens da luz polarizada do gás quente e brilhante próximo
a buracos negros, inferimos diretamente a estrutura e a intensidade dos campos
magnéticos que permeiam o fluxo de gás e matéria que o buraco negro consome e
ejeta.
Assim, a luz polarizada nos
ensina sobre astrofísica, as propriedades do gás e os mecanismos que ocorrem
quando um buraco negro se alimenta! Há muitas evidências de que os campos
magnéticos desempenham um papel fundamental na forma como um buraco negro se
alimenta e ejeta poderosos jatos de plasma. O processo que lança esses jatos é
o mecanismo mais energético do universo e afeta drasticamente o crescimento, a
fusão e a evolução das galáxias. É impressionante que danos em larga escala
possam ser causados por um
objeto tão pequeno no centro de uma galáxia, e tudo começa no plasma na borda
do buraco negro, onde esses campos magnéticos predominam.
Com o EHT, obtivemos imagens da
estrutura de polarização ao redor dos buracos negros M87* e Sagitário A* (Sgr
A*). M87* e Sgr A* são buracos negros muito diferentes. M87* é um buraco negro
bastante especial: possui 6 bilhões de massas solares, reside em uma galáxia
elíptica gigante e ejeta um poderoso jato de plasma visível em todos os
comprimentos de onda. Sgr A*, por outro lado, é um buraco negro mais comum:
possui 4 milhões de massas solares, reside em nossa galáxia espiral comum, a
Via Láctea, e aparentemente não possui jato algum. No entanto, quando obtivemos
as primeiras imagens de toda a luz proveniente desses buracos negros, as
imagens eram surpreendentemente semelhantes. A característica dominante era a
lente gravitacional da luz ao redor da sombra do buraco negro.
Essencialmente, a gravidade do
buraco negro é tão imensa que curva a luz da porção do disco de acreção que
está atrás dele, permitindo-nos ver o que há atrás do buraco negro. Observando
toda a luz emitida por esses dois buracos negros, percebemos que ela era
essencialmente a mesma.
Ao observar a porção da luz
polarizada, esperávamos descobrir que seus campos magnéticos possuíam
propriedades diferentes — talvez um fosse mais ordenado e forte, o outro mais
desordenado e fraco. No entanto, como eles também parecem semelhantes em luz polarizada,
agora está bastante claro que essas duas classes diferentes de buracos negros
têm geometrias de campo magnético muito similares.
Com as duas imagens polarizadas
de buracos negros muito diferentes, agora temos evidências convincentes de que
campos magnéticos fortes são onipresentes. O próximo passo envolve conectar
essa geometria à forma como esses sistemas se movem, evoluem e emitem erupções.
Novos projetos como o EHT de próxima geração (ngEHT) e o Explorador de Buracos
Negros (BHEX) abrirão novas áreas de estudo de buracos negros que ajudarão a
desvendar os mistérios de como eles se alimentam.
O ngEHT planeja adicionar mais
telescópios na Terra para preencher nosso espelho virtual do tamanho da Terra e
observar com muito mais frequência. Com essas expansões do EHT, seremos capazes
de fazer filmes polarizados de buracos negros. Observaremos diretamente a
dinâmica entre M87* e seu jato. O BHEX, por outro lado, visa adicionar um
telescópio no espaço para aumentar drasticamente a resolução do EHT. Com esse
esforço pioneiro, seremos capazes de observar o anel de fótons nítido na borda
da sombra do horizonte de eventos em imagens de buracos negros.
Este anel de fótons, criado
quando a luz do disco de acreção orbita o buraco negro diversas vezes antes de
finalmente escapar, codifica propriedades do espaço-tempo ao redor do buraco
negro e pode nos dizer a rotação do mesmo. Acredita-se que a magnitude da
rotação dos buracos negros (seu spin) esteja diretamente relacionada à
aparência dos campos magnéticos próximos ao buraco negro e à capacidade de
lançar jatos.
Sara Issaoun, Bolsista Einstein da NASA, Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian, Cambridge, Massachusetts
Astronomy.com

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