O segredo guardado sob as nuvens de Júpiter
Pesquisa revela partes do enigma
da Grande Mancha Vermelha, que intriga astrônomos há mais de três séculos.
Missão Juno da NASA conseguiu
registrar tempestades elétricas na superfície de Júpiter © Koji Kuramura/Heidi
N. Becker/Gerald Eichstädt/MSSS/SwRI/JPL-Caltech/NASA
Durante séculos, Júpiter fascinou
os astrônomos por sua atmosfera caótica e, acima de tudo, por sua colossal
Grande Mancha Vermelha: uma tempestade persistente, maior que a Terra e
observada há pelo menos 360 anos na superfície do planeta – desde que os primeiros
telescópios permitiram aos astrônomos documentá-la.
No entanto, o que ocorre sob a
espessa camada de nuvens permaneceu, em grande parte, fora do alcance. Agora,
novas simulações permitem entender melhor o que ocorre no interior Grande
Mancha Vermelha.
Modelo computacional
Uma equipe de cientistas da
Universidade de Chicago e do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa
desenvolveu o modelo computacional mais completo até hoje da atmosfera de
Júpiter. O resultado é surpreendente: o planeta parece conter aproximadamente
uma vez e meia mais oxigênio do que o Sol, muito acima das estimativas
anteriores que sugeriam apenas um terço disso. Os detalhes foram publicados em
um estudo na The Planetary Science Journal.
A descoberta não é apenas uma
curiosidade sobre os componentes químicos do fenômeno. Além de melhorar nossa
compreensão do maior planeta do sistema solar, o estudo oferece novas pistas
sobre os processos que moldaram todos os planetas que conhecemos, incluindo a
Terra.
A Grande Mancha Vermelha de Júpiter é uma tempestade maior do que a Terra que exista há pelo menos 360 anos na atmosfera do planeta © NASA/ESA/STScI/Amy Simon/ABACA/picture aliance
Como Júpiter se formou?
A explicação mais provável, de
acordo com os novos indícios, é que Júpiter se formou além da chamada
"linha da neve", uma região distante do Sol onde a água e outros
compostos podem existir na forma de gelo. Esse gelo teria fornecido grandes quantidades
de oxigênio na forma de água congelada, facilitando seu acúmulo no planeta.
Até agora, a maioria dos modelos
estudava separadamente a química e o movimento da atmosfera. A equipe liderada
por Jeehyun Yang, pesquisador do pós-doutorado da Universidade de Chicago,
decidiu unir as duas abordagens em um único modelo. "A química é
importante, mas não inclui as gotas de água nem o comportamento das nuvens. A
hidrodinâmica por si só simplifica demais a química. Por isso é importante
combiná-las", explica Yang.
A nova simulação permite
reconstituir um modelo que mostra como a água, as nuvens e os diferentes
processos químicos são redistribuídos dentro do planeta, ascendendo lentamente
das regiões internas muito quentes para as zonas atmosféricas mais frias, oferecendo
assim uma imagem mais precisa da circulação de gases em Júpiter.
E aí surgiu outra surpresa: essa
circulação é muito mais lenta do que se pensava. De acordo com o modelo, a
difusão seria entre 35 e 40 vezes mais lenta do que se estimava até agora. Em
outras palavras, processos que antes acreditava-se que ocorriam em questão de
horas podem, na verdade, durar semanas.
A atmosfera inexplorada de
Júpiter
Júpiter não tem uma superfície
sólida conhecida. É um mundo gigantesco formado por gases e líquidos submetidos
a pressões e temperaturas extremas. Qualquer tentativa de penetrar na atmosfera
do maior planeta do sistema solar seria em vão. Se uma nave tentasse penetrá-la
demasiadamente, acabaria sendo destruída pelas condições extremas do ambiente.
A sonda Galileo, por exemplo, deixou de funcionar quase imediatamente após
mergulhar na atmosfera do planeta.
Atmosfera de Júpiter capturada pela sonda Juno da NASA durante sua 16ª passagem, em outubro de 2018 © NASA/ZUMA/picture alliance
Foi possível apenas estudar as
camadas superiores do planeta a partir da órbita, graças a missões como a Juno.
Essas observações confirmaram a presença de compostos como amônia, metano e
monóxido de carbono. No entanto, a grande incógnita fica mais abaixo, nas
profundezas da atmosfera, onde se concentra o oxigênio, principalmente na forma
de água.
Uma "cápsula do
tempo" do sistema solar
O novo modelo sugere que
compreender como essas moléculas se movem e se transformam é fundamental não
apenas para conhecer melhor Júpiter, mas também para reconstruir a história do
sistema solar. Como Yang explicou ao site Space.com, "os planetas conservam
as marcas químicas dos ambientes em que se formaram, o que os torna cápsulas do
tempo".
Os estudiosos ainda discutem se
Júpiter nasceu na posição que ocupa hoje ou se migrou de regiões mais distantes
do Sol. Mas descobertas como essa permitem restringir essas possibilidades. A
elevada quantidade de oxigênio detectada dá suporte à hipótese de que o planeta
tenha se formado em zonas mais frias e distantes, onde o gelo era abundante e
podia ser incorporado mais facilmente durante o crescimento de Júpiter.
Em outras palavras, ao decifrar o
que ocorre sob as nuvens de Júpiter, os cientistas não apenas ajudariam a
esclarecer um dos grandes mistérios da pesquisa planetária, mas também
contribuiriam para reconstituir os primeiros capítulos da história do sistema
solar, ao mesmo tempo em que orientariam a busca por planetas habitáveis em
outros sistemas estelares.
Msn.com



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