‘Quase-galáxia’: cientistas identificam estrutura cósmica sem estrelas, uma relíquia do cosmos
O universo continua surpreendendo quem o estuda. Nesta semana, astrônomos anunciaram a descoberta de um tipo inédito de objeto cósmico, algo que se assemelha a uma galáxia, mas sem um de seus principais componentes: as estrelas.
A nuvem Cloud-9, localizada a 14
milhões de anos-luz da Terra, é representada em magenta por dados de rádio
coletados pelo Very Large Array no Novo México. Foto: NASA, ESA, VLA, Gagandeep
Anand (STScI), Alejandro Benitez-Llambay (Universidade de Milão-Bicocca)
A quase-galáxia, localizada a
cerca de 14 milhões de anos-luz da Terra, foi identificada como a nona nuvem
associada a uma galáxia espiral próxima. Por isso, recebeu o nome de Nuvem-9.
Diferentemente das galáxias convencionais, ela é formada apenas por uma névoa
de gás hidrogênio, envolta em um grande aglomerado de matéria escura — a
substância invisível que preenche o cosmos e molda sua estrutura.
“Não encontramos nada parecido
com isso até agora”, afirmou Rachael Beaton, astrônoma do Instituto de Ciência
do Telescópio Espacial, durante reunião da Sociedade Astronômica Americana, em
Phoenix. “É basicamente uma galáxia que nunca chegou a existir.”
A Nuvem-9 é o primeiro exemplo
confirmado de um RELHIC, sigla em inglês para Reionization-Limited HI Cloud
(Nuvem de Hidrogênio Limitada pela Reionização), pronunciada “relic”, ou
“relíquia”. Esses objetos contêm grandes quantidades de gás, mas nenhuma estrela.
Considerados “galáxias fracassadas”, são remanescentes do início do universo e
podem ajudar os cientistas a entender o que torna possível o nascimento das
galáxias.
O estudo dessas estruturas também
pode esclarecer a natureza da matéria escura, revelando que tipo de partículas
a compõem e de que forma ela influencia a forma e a evolução do universo
observável.
A hipótese mais aceita sobre a
formação cósmica prevê que halos de matéria escura estão espalhados por todo o
espaço. Quando possuem massa suficiente, esses halos atraem gás, que dá origem
às estrelas e, eventualmente, a uma galáxia. Mas modelos teóricos também
sugerem que halos menores podem acumular gás sem nunca formar estrelas — e, por
não emitirem luz, só podem ser detectados pelas ondas de rádio do hidrogênio.
A Nuvem-9 foi observada pela
primeira vez em 2023 por pesquisadores chineses, usando o Telescópio Esférico
de Abertura de Quinhentos Metros (FAST). Depois, telescópios nos Estados Unidos
confirmaram que o objeto realmente parecia não ter estrelas.
Mesmo assim, restavam dúvidas:
seria a Nuvem-9 uma galáxia anã escura, com estrelas fracas demais para serem
vistas da Terra?
Em 2025, uma equipe liderada por
Gagandeep Anand, também do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial,
observou o objeto com o Telescópio Espacial Hubble. Os dados indicaram que a
Nuvem-9 contém cerca de cinco bilhões de vezes a massa do Sol em matéria
escura, envolvendo um milhão de massas solares em gás hidrogênio.
“Está claro que não há uma
quantidade significativa de estrelas ali”, disse Anand. “Não se trata de uma
galáxia anã fraca.”
Para Priyamvada Natarajan,
astrofísica da Universidade Yale que não participou do estudo, a descoberta é
“muito instigante” e pode abrir caminho para testar novos modelos de matéria
escura. “A próxima questão é saber quantas dessas relíquias existem em diferentes
momentos do universo”, afirmou. “Está na hora de começarmos a planejar um
telescópio capaz de responder a isso.”
Anand acredita que a equipe teve
sorte ao encontrar a Nuvem-9, mas está convencido de que outras semelhantes
estão por aí. “Este é apenas o primeiro exemplo”, disse. “Com certeza existem
mais”. /NYT
Msn.com

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