Algo surpreendente foi descoberto no lado oculto da Lua

Por muito tempo, a Lua foi vista como um mundo parado e sem vida, um corpo celeste seco, frio e geologicamente morto há bilhões de anos

Imagem via Unsplash 

As amostras trazidas pelas missões Apollo e soviéticas reforçavam essa ideia: pouca ou nenhuma água, atividade vulcânica encerrada há mais de 3 bilhões de anos e uma superfície praticamente inerte. Mas as recentes missões chinesas do programa Chang”e mudaram completamente essa visão, revelando que a Lua é, na verdade, um lugar dinâmico, com ciclos de água ativos, recursos valiosos e até uma história vulcânica mais recente do que se imaginava.

O programa Chang”e foi planejado em etapas claras e bem-sucedidas. Primeiro vieram as sondas orbitais Chang”e 1 e 2, que mapearam a superfície em detalhes e escolheram os melhores locais para pousos. Depois, as missões Chang”e 3 e 4 levaram rovers à superfície – o coelhinho de jade testou como sobreviver à longa noite lunar e a Chang”e 4 fez história ao pousar no lado oculto da Lua em 2019, onde conseguiu cultivar plantas e se comunicar com a Terra por meio de um satélite-relê. Por fim, as missões Chang”e 5 e 6 trouxeram amostras de volta à Terra, algo que nenhum país realizava desde 1976.

Uma das grandes surpresas veio das amostras da Chang”e 5: minúsculas esferas de vidro formadas por impactos de micrometeoritos funcionam como verdadeiras “baterias? para o vento solar. Prótons vindos do Sol se instalam nesses vidros e se combinam com o oxigênio, criando moléculas de água ou hidroxila. Com as variações de temperatura ao longo do dia lunar, essa água é liberada como vapor e depois recapturada, formando um ciclo constante. Os cálculos indicam que pode haver até 270 bilhões de toneladas de água na camada superficial da Lua – o suficiente para ser extraída simplesmente aquecendo o solo, sem depender apenas das crateras escuras nos polos.

Outro achado impressionante foi o mineral hidratado batizado de ULM-1, descoberto em 2024 nas amostras da Chang”e 5. Trata-se de um cristal que contém até 41% de água presa em sua estrutura, estável mesmo em áreas iluminadas pelo Sol intenso, longe das regiões sombreadas. Além da água, esse mineral fornece nitrogênio, que pode ser usado para fertilizantes ou combustível de foguetes. Isso mostra que a Lua guarda água em lugares inesperados, abrindo portas para sustentar bases futuras.

Ainda mais intrigante foi a descoberta de grafeno e grafite natural no solo lunar. Esses materiais de carbono, que normalmente exigem processos industriais complexos na Terra, surgiram de forma natural na Lua por meio de reações catalisadas pelo ferro durante erupções vulcânicas antigas, com ajuda do vento solar. Essa presença de carbono exótico desafia a teoria de que a Lua seria pobre em elementos voláteis e sugere que podemos usar esses materiais para construir estruturas ou produzir químicos diretamente lá.

A missão Chang”e 6, que coletou amostras no lado oculto, na imensa Bacia do Polo Sul-Aitken, trouxe ainda mais evidências: rochas datadas mostram que o vulcanismo lunar continuou ativo até cerca de 2,8 bilhões de anos atrás – bem mais tarde do que os modelos anteriores previam. Mesmo com uma crosta mais espessa no lado distante, o interior da Lua manteve calor suficiente para erupções prolongadas.

Todas essas descobertas fortalecem o projeto da Estação Lunar Internacional (ILRS), uma base permanente planejada pela China em parceria com outros países, incluindo a Rússia. A ideia é usar os recursos locais – água dos minerais e esferas de vidro, hélio-3 para futura fusão nuclear, grafeno para materiais de construção – para criar uma presença sustentável na Lua, sem depender tanto de suprimentos trazidos da Terra.

As próximas etapas já estão definidas: a Chang”e 7 vai mapear os polos em busca de gelo em crateras permanentemente sombreadas, e a Chang”e 8 testará a impressão 3D de estruturas usando o próprio solo lunar. Aos poucos, a Lua deixa de ser apenas um objeto distante para se tornar um mundo ativo e cheio de potencial, onde a exploração espacial pode se tornar algo prático e duradouro. O que antes era considerado um deserto inóspito agora revela recursos que podem mudar o futuro da humanidade no espaço.

Terrarara.com.br

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