Astrónomos observam o nascimento de um magnetar numa supernova superluminosa
Os astrónomos observaram pela
primeira vez o nascimento de um magnetar - uma estrela de neutrões altamente
magnetizada - e confirmaram que é a fonte de energia por trás de algumas das
estrelas explosivas mais brilhantes do cosmos.
Impressão de artista de um magnetar rodeado por um disco de acreção que está a oscilar, ou sob o efeito de precessão, devido aos efeitos da relatividade geral. Alguns modelos de magnetares sugerem que jatos velozes de partículas carregadas emanam do magnetar ao longo do seu eixo de rotação. Crédito: Joseph Farah e Curtis McCully/LCO
A descoberta corrobora uma teoria
proposta por um físico da Universidade da Califórnia em Berkeley há 16 anos e
estabelece um novo fenómeno nas estrelas em explosão: supernovas com um
"chilrear" na sua curva de luz causado pela relatividade geral. O
artigo científico que descreve o fenómeno foi publicado dia 11 de março na
revista Nature.
As supernovas superluminosas -
que podem ser 10 ou mais vezes mais brilhantes do que as supernovas comuns -
intrigam os astrónomos desde a sua descoberta no início da década de 2000.
Pensava-se que resultavam da explosão de estrelas muito massivas, talvez com 25
vezes a massa do nosso sol, mas elas permanecem brilhantes por muito mais tempo
do que seria de esperar quando o núcleo de ferro de uma estrela colapsa e as
suas camadas externas são subsequentemente expelidas.
Em 2010, Dan Kasen, agora
astrofísico teórico e professor de física na Universidade da Califórnia em
Berkeley, foi o primeiro a propor que um magnetar estava a alimentar o brilho
duradouro. De acordo com a teoria, coautoria de Lars Bildsten e sugerida independentemente
por Stanford Woosley, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, quando uma
estrela massiva entra em colapso no final da sua vida, esmaga grande parte da
sua massa numa estrela de neutrões muito compacta - um destino que fica um
pouco aquém do colapso num buraco negro.
Se a estrela tivesse
originalmente um campo magnético muito forte, este teria sido ampliado durante
a formação do magnetar, produzindo um campo 100 a 1000 vezes mais forte do que
o das normais estrelas de neutrões com elevada rotação - os chamados pulsares.
Os pulsares e os seus irmãos e altamente magnetizados, os magnetares, têm
apenas cerca de 16 km de diâmetro, mas, na sua juventude, podem girar mais de
1000 vezes por segundo.
À medida que o magnetar gira, o
campo magnético pode acelerar partículas carregadas que colidem com os detritos
da supernova em expansão, aumentando o seu brilho. Pensa-se também que os
magnetares sejam a fonte das FRBs ("fast radio bursts", o que em
português significa rajadas rápidas de rádio).
O estudante Joseph Farah, da
Universidade da Califórnia em Santa Barbara e do LCO (Las Cumbres Observatory),
confirmou a ligação entre os magnetares e as supernovas superluminosas do Tipo
I (SLSNe-I) após analisar dados de uma supernova de 2024 chamada SN 2024afav.
No artigo científico da Nature, Farah e os seus colegas propuseram uma
explicação relativística para os invulgares picos na curva de luz desta
supernova - o que eles chamam de "chilrear" - que a ligam
conclusivamente a um magnetar.
"O que é realmente
empolgante é que esta é uma evidência definitiva da formação de um magnetar
como resultado do colapso do núcleo de uma supernova superluminosa", disse
Alex Filippenko, ilustre professor de astronomia da UC Berkeley, coautor do
artigo científico. "A base do modelo de Dan Kasen e Stan Woosley é que
tudo o que precisamos é da energia do magnetar nas profundezas e uma boa parte
dela será absorvida, e isso explica a razão do objeto ser superluminoso. O que
não havia sido demonstrado era que um magnetar realmente se formou no meio da
supernova, e é isso que o artigo científico do Joseph mostra".
"Durante anos, a ideia do
magnetar parecia quase um truque de magia por parte dos teóricos - esconder um
motor poderoso por trás de camadas de detritos de uma supernova", disse
Kasen. "Era uma explicação natural para o brilho extraordinário destas
explosões, mas não podíamos vê-lo diretamente. O 'chilrear' neste sinal da
supernova é como se esse motor abrisse a cortina e revelasse que realmente
existe".
Descoberta distante
Após a descoberta de SN 2024afav
em dezembro de 2024, o LCO - uma rede de 27 telescópios espalhados por todo o
mundo - rastreou-a e mediu o seu brilho por mais de 200 dias. A estrela em
explosão estava localizada a cerca de mil milhões de anos-luz da Terra.
Farah, trabalhando com o
astrónomo Andy Howell da UCSB, percebeu que, após atingir o pico do brilho
cerca de 50 dias após a explosão, não desapareceu gradualmente como as
supernovas típicas. Em vez disso, o seu brilho oscilou lentamente para baixo,
com o período das oscilações a encurtar gradualmente, produzindo uma série de
quatro picos. Ele comparou isto a um som que aumenta gradualmente em
frequência, muito parecido com o chilrear de um pássaro.
Sabia-se que as supernovas
superluminosas anteriores apresentavam alguns picos na sua curva de luz em
decaimento, o que alguns interpretaram como o choque da supernova a colidir com
camadas de gás acumuladas em torno da estrela, iluminando-a brevemente. Mas
ninguém tinha observado quatro picos.
O brilho da supernova SN 2024afav, conforme registado ao longo do tempo por três telescópios diferentes, incluindo o LCO. Após atingir o pico de brilho, a supernova ficou mais fraca, mas apresentou vários picos de brilho com períodos cada vez mais curtos. Os investigadores referiram-se a esta frequência crescente como um chilrear. O modelo de um magnetar com um disco de acreção que oscila devido a efeitos relativísticos é o que melhor se ajusta às curvas de luz (linhas coloridas sólidas que ligam os pontos, pontos estes que representam medições individuais do brilho). Crédito: Joseph Farah et al
De acordo com o modelo de Farah,
algum material da explosão de SN 2024afav caiu de volta em direção ao magnetar,
formando um disco de matéria chamado disco de acreção. Como é improvável que o
material em redor do magnetar seja simétrico, o disco de acreção também não
seria simétrico em torno da estrela de neutrões, levando a um desalinhamento do
eixo de rotação do magnetar e do eixo de rotação do disco de acreção.
Tendo em conta que a relatividade
geral afirma que uma massa em rotação arrasta o espaço-tempo consigo, o
magnetar em rotação produziria um efeito conhecido como precessão de
Lense-Thirring, ou seja, faria com que o disco desalinhado oscilasse. Um disco oscilante
poderia bloquear e refletir periodicamente a luz do magnetar, transformando
todo o sistema num farol cósmico intermitente. O tempo para que isso se repita
diminui com o raio do disco, de modo que, à medida que o disco se desloca em
direção ao magnetar, ele oscila mais rapidamente, fazendo com que a luz oscile
mais rapidamente à medida que se desvanece, criando o "chilrear"
observado pelos telescópios na Terra.
"Testámos várias ideias,
incluindo efeitos puramente newtonianos e precessão impulsionada pelos campos
magnéticos do magnetar, mas apenas a precessão de Lense-Thirring correspondia
perfeitamente ao ritmo", disse Farah. "É a primeira vez que a
relatividade geral é necessária para descrever a mecânica de uma
supernova".
Os astrónomos também usaram dados
observacionais para estimar o período de rotação da estrela de neutrões - 4,2
milissegundos - e o campo magnético: cerca de 300 biliões de vezes o da Terra.
Ambos são características marcantes de um magnetar.
"Acho que o Joseph encontrou
a prova irrefutável", disse Howell, cientista sénior do LCO e professor
adjunto de física da UCSB. "Ele relacionou as oscilações com o modelo do
magnetar e explicou tudo com a teoria mais comprovada da astrofísica - a
relatividade geral. É incrivelmente elegante".
Filippenko acrescentou: "É
sempre emocionante ver um efeito claro da teoria da relatividade geral de
Einstein, mas vê-lo pela primeira vez numa supernova é especialmente
gratificante".
Filippenko alertou que a
conclusão de Farah não significa que todas as supernovas superluminosas sejam
alimentadas por magnetares. Há também uma teoria alternativa: que a onda de
choque da explosão estelar atinge o material que a rodeia, aumentando um pouco
o seu brilho. Além disso, Kasen propôs que, se o colapso do núcleo de uma
estrela resultar num buraco negro, isso também poderia alimentar uma supernova
mais brilhante e, se tivesse um disco de acreção desalinhado, produzir
oscilações na curva de luz.
"Não sabemos que fração das
supernovas superluminosas do tipo I pode ser alimentada por material
circunstelar, mas é definitivamente uma fração mais pequena do que pensávamos
anteriormente, porque esta descoberta explica claramente algumas delas",
disse Filippenko.
Farah espera encontrar dúzias
destas supernovas "chilreantes" à medida que o Observatório Vera C.
Rubin se prepara para entrar em operação e dar início ao mais compreensivo
levantamento do céu noturno até à data.
"Esta é a coisa mais
excitante da qual já tive o privilégio de fazer parte - é a ciência com que
sonhei quando era criança", disse Farah. "É o Universo a dizer-nos,
em voz alta e cara a cara, que ainda não o compreendemos totalmente, e a desafiar-nos
para o explicar".
Astronomia OnLine


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