3I/ATLAS: cometa nasceu em um ambiente muito mais frio que o do Sistema Solar, mostra estudo
Em 2025, astrônomos identificaram
um visitante raríssimo passando pelo Sistema Solar. Ele vinha de fora, em uma
trajetória aberta, rápida demais para estar presa à gravidade do Sol. Era o
3I/ATLAS – apenas o terceiro objeto interestelar já detectado pela humanidade.
2604–3I-ATLAS-layout_site © Hans Anderson/Michigan News/Divulgação
Desde então, o cometa virou alvo
de uma corrida científica. A ideia era aproveitar a breve passagem para extrair
o máximo de informação possível sobre sua origem. Um novo estudo, publicado na
revista Nature Astronomy, conseguiu avançar bastante nesse quebra-cabeça. A
conclusão principal é que ele nasceu em um ambiente muito diferente do nosso –
e, sobretudo, muito mais frio.
A pista mais importante veio da
água. Cometas são ricos em gelo, o que funciona como um registro químico do
lugar onde eles se formaram. No caso do 3I/ATLAS, os pesquisadores analisaram a
proporção entre dois tipos de água. A comum, H₂O, e uma variação chamada "água deuterada", em que um
dos átomos de
hidrogênio é substituído por deutério, uma versão mais pesada do elemento (com um
nêutron a mais).
Essa diferença, que parece
pequena, carrega informações valiosas. A quantidade de deutério presente na
água depende das condições físicas do ambiente de origem, especialmente da
temperatura. Em regiões muito frias, certos processos químicos favorecem a incorporação
desse hidrogênio mais pesado nas moléculas.
Foi exatamente isso que apareceu
nas medições. O cometa tem uma quantidade de água deuterada muito acima do
normal: mais de 30 vezes a observada em cometas do Sistema Solar e mais de 40
vezes a registrada nos oceanos da Terra.
Isso indica que o 3I/ATLAS se
formou em um ambiente extremamente frio, com temperaturas de cerca de –240 °C.
Chegar a esse resultado exigiu
uma observação no momento certo. O cometa foi analisado poucos dias depois de
passar pelo ponto mais próximo do Sol. Nessa fase, o calor faz o gelo da
superfície sublimar, liberando gás e formando uma nuvem ao redor do núcleo. É
essa nuvem, chamada de "coma", que os cientistas estudam para
identificar as substâncias presentes no objeto.
Usando o radiotelescópio ALMA, no
Chile, a equipe conseguiu detectar diretamente a água deuterada nessa nuvem. A
água comum, por outro lado, não apareceu com clareza nos dados. Para contornar
isso, os pesquisadores recorreram a modelos físicos que estimam sua quantidade
com base em outras moléculas presentes no gás.
Mesmo com essa limitação, o
resultado é consistente. A proporção entre os dois tipos de água é tão alta que
praticamente não deixa margem para interpretação. O cometa se formou em um
ambiente bem mais frio e provavelmente menos exposto à radiação do que aquele
que deu origem ao Sistema Solar.
“Isso prova que as condições que
levaram à criação do nosso Sistema Solar não são as mesmas em todo o espaço”,
afirmou Teresa Paneque-Carreño, coautora do estudo, em comunicado.
Essa assinatura química funciona
como uma espécie de impressão digital. A relação entre deutério e hidrogênio é
definida, em última instância, por processos que remontam ao início do
Universo, mas é alterada ao longo do tempo por reações químicas que dependem
muito da temperatura. O que o 3I/ATLAS preserva é um retrato dessas condições
no momento em que se formou.
Outras observações reforçam a
ideia de que estamos diante de um objeto incomum. Dados do telescópio espacial
James Webb sugerem que ele pode ser extremamente antigo, com idade estimada
entre 10 e 12 bilhões de anos. Se isso se confirmar, ele teria surgido nos
primeiros estágios da Via Láctea, muito antes do nascimento do Sol.
Isso ajuda a explicar por que sua
composição destoa tanto dos cometas conhecidos. Ele pode ter se formado em uma
fase da galáxia em que os ambientes de formação planetária eram diferentes dos
atuais, ou em regiões que evoluíram de outra forma.
Ainda assim, várias perguntas
permanecem abertas. Não é possível determinar de qual sistema estelar
exatamente o 3I/ATLAS veio. Depois de ser expulso de sua estrela de origem, ele
provavelmente passou bilhões de anos vagando pelo espaço interestelar, exposto
a radiação de alta energia, o que pode ter alterado parcialmente sua
composição.
Agora, o cometa já está deixando
o Sistema Solar. Ele deve cruzar as órbitas dos planetas gigantes nos próximos
anos e seguir viagem rumo ao espaço profundo. Não há como trazê-lo de volta.
Mas os dados coletados durante essa breve passagem continuam sendo analisados.
Msn.com

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