As "primas pequenas" da Via Láctea podem conter pistas do Universo primitivo
As galáxias anãs ultrafracas -
minúsculas galáxias satélite que orbitam a Via Láctea - há muito que são
consideradas fósseis cósmicos. Agora, um novo estudo publicado na revista
Monthly Notices of the Royal Astronomical Society utiliza um conjunto sem precedentes
de simulações para mostrar até que ponto estes sistemas ténues podem refletir
as condições do Universo primitivo e explicar-nos por que razão algumas
galáxias cresceram e outras não.
(A) Distribuição da matéria escura na nossa vizinhança no Universo, o chamado Grupo Local de galáxias. Os dois grandes halos de matéria escura correspondem aos da Via Láctea e da galáxia de Andrómeda; (B) ampliação da matéria escura dentro e em torno de um pequeno halo, cerca de 700 milhões de anos após o Big Bang; (C) estrelas e gás no centro do pequeno halo de matéria escura numa das simulações. Crédito: J. Sureda/A. Fattahi/S. Brown
Podem também revelar como era o "clima" mais antigo do Universo - por exemplo, o nível de radiação e como isso influenciou a formação de estrelas e os locais onde estas se formaram.
As galáxias anãs são
frequentemente descritas como primas pequenas da Via Láctea. Formam-se em
pequenos halos de matéria escura, previstos pelo modelo padrão da cosmologia.
Os exemplos mais ténues desses sistemas são extremos tanto em tamanho como em
fragilidade, e situam-se na fronteira do nosso conhecimento acerca da formação
de galáxias e da matéria escura.
"Neste trabalho,
apresentámos um conjunto totalmente novo de simulações cosmológicas centradas
nas galáxias mais ténues do Universo, com uma resolução sem precedentes. Esta
é, de longe, a maior amostra de tais galáxias alguma vez simulada com estas resoluções",
afirmou a professora Dra. Azadeh Fattahi, do OKC (Oskar Klein Centre) em
Estocolmo, que liderou o novo estudo com a colaboração LYRA, em parceria com a
Universidade de Durham e a Universidade do Hawaii.
"As galáxias mais pequenas
são designadas por galáxias anãs ultrafracas, cuja massa é um milhão de vezes
inferior à da Via Láctea ou ainda menos. Devido ao seu pequeno tamanho, estas
galáxias têm-se revelado muito difíceis de modelar e simular". Este novo
conjunto de simulações representa um grande passo em frente, permitindo uma
visão sistemática de como estas galáxias se formam e evoluem.
Uma analogia prática
"Uma analogia útil... é com
as plantas e as culturas e a forma como o seu crescimento é sensível às
condições meteorológicas", afirmou Shaun Brown, que liderou o estudo
enquanto trabalhava no OKC e na Universidade de Durham.
"Da mesma forma que o
rendimento de uma colheita no verão pode, indiretamente, dizer-nos muito sobre
como deve ter sido o tempo na primavera, as propriedades das galáxias anãs
ténues de hoje podem dizer-nos muito sobre as condições, ou o clima, do Universo
numa época muito anterior".
O que torna estes resultados
especialmente oportunos é o facto de as simulações não se limitarem a
reproduzir galáxias anãs pouco luminosas - sugerem que estes objetos locais
podem servir como uma sonda para o "clima" mais primitivo do Universo.
A equipa explorou de que forma diferentes pressupostos sobre o ambiente de
radiação primitivo influenciam quais os pequenos halos de matéria escura que
conseguem, de todo, formar estrelas.
"No artigo científico,
estudámos duas hipóteses diferentes sobre as propriedades do Universo
primitivo, quando tinha menos de 500 milhões de anos, para compreender o efeito
nas propriedades destas pequenas galáxias hoje, quando o Universo tem 13 mil
milhões de anos", explicou Brown.
"Descobrimos que estas
pequenas galáxias ultrafracas são muito sensíveis a estas alterações, enquanto
galáxias mais massivas, como a nossa Via Láctea, não são realmente
afetadas", acrescentou. "Para as galáxias mais pequenas, as condições
iniciais podem determinar se se tornam galáxias visíveis - ou se permanecem
halos de matéria escura sem estrelas".
Investigação futura
Essa sensibilidade abre um
caminho claro para testar a física do Universo primitivo com as próximas
observações. "É emocionante pensar que, num futuro próximo, teremos dados
do Observatório Vera C. Rubin, que será capaz de detetar muitas mais destas
anãs ultrafracas em torno da Via Láctea", afirmou a Dra. Fattahi.
Muitos astrónomos esperam que o
Rubin consiga fornecer um censo quase completo das galáxias satélites da Via
Láctea - e estas simulações sugerem que este censo poderá conter informações
que vão muito além da nossa vizinhança local.
"O nosso trabalho sugere que
estas próximas observações do Universo muito local serão capazes de restringir
a forma como o Universo se apresentava na sua infância, algo a que atualmente
não podemos aceder diretamente com outras observações", acrescentou a Dra.
Fattahi.
O resultado é particularmente
relevante à luz das recentes descobertas, pelo Telescópio Espacial James Webb,
de galáxias no Universo primitivo, algumas das quais são inesperadamente
massivas e brilhantes.
Se o Universo primitivo está a
revelar surpresas a grandes distâncias, então as relíquias locais da mesma
época - anãs ultrafracas - podem constituir uma via adicional para compreender
o que aconteceu.
No entanto, em investigações como
esta, ainda há grandes desafios práticos a superar. "Executar estas
simulações é um desafio extremamente dispendioso, tanto em termos de tempo como
de recursos computacionais. No total, foram necessários mais de 6 meses para
executar todas as simulações", acrescentou a Dra. Fattahi.
"A simulação também produz
quantidades muito grandes de dados (no total, cerca de 300 terabytes). Isto
significou que muitos dos algoritmos antigos, concebidos para quantidades mais
pequenas de dados, precisaram de ser atualizados e melhorados para lidar
eficazmente com esta nova e grande quantidade de dados".
Olhando para o futuro, a equipe
da Dra. Fattahi planeia utilizar o novo conjunto de ferramentas para abordar
questões que ainda estão em aberto na formação moderna de galáxias e
estruturas, tais como: onde podemos encontrar a primeira geração de estrelas
formadas no Universo? Ou o que é que as propriedades das galáxias anãs
ultrafracas nos dizem sobre a natureza da matéria escura?
Astronomia OnLine

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