Determinando a idade de uma anã castanha através de minúsculas pulsações estelares
Os astrónomos recorreram ao Observatório W. M. Keck, em Maunakea, no Hawaii, para determinar uma das idades mais precisas até à data para uma estrela semelhante ao Sol que possui uma anã castanha como companheira. O resultado constitui um novo e importante teste sobre a forma como as anãs castanhas arrefecem e evoluem ao longo do tempo, ajudando a resolver um desafio de longa data na astrofísica.
Ilustração, gerada por IA, de uma estrela e de uma anã castanha num sistema binário. Crédito: ChatGPT/Universidade do Hawaii
O estudo centrou-se no sistema próximo HR 7672, que inclui uma estrela semelhante ao Sol e uma companheira anã castanha pouco brilhante. Utilizando o KPF (Keck Planet Finder) do Observatório Keck, a equipa detetou oscilações subtis na superfície da estrela, ondulações que revelaram que a sua idade é de 2,3 mil milhões de anos.
Como a anã castanha se formou
juntamente com a estrela, esta idade estelar precisa serve de referência para a
evolução da companheira, oferecendo uma oportunidade rara de testar diretamente
modelos teóricos do arrefecimento das anãs castanhas.
"A incerteza de 18% quanto à
idade estabelece o sistema HR7672 como uma referência valiosa para os próximos
anos", afirmou Yaguang Li, autor principal e investigador da Universidade
do Hawaii em Mānoa.
O estudo, liderado pelo Instituto
de Astronomia da Universidade do Hawaii, foi publicado na revista The
Astrophysical Journal.
Uma trajetória científica
de duas décadas
O sistema HR 7672 tem
desempenhado um papel histórico no estudo de objetos subestelares. A
companheira, conhecida como HR 7672B, foi descoberta pela primeira vez pelo
investigador Michael Liu, coautor e professor do Instituto de Astronomia da
Universidade do Hawaii. HR 7672B foi a primeira anã castanha a ser diretamente
fotografada em órbita de uma estrela semelhante ao Sol.
Utilizando o instrumento NIRC2
(Near-Infrared Camera) do Observatório Keck e o sistema de Ótica Adaptativa do
telescópio para corrigir a distorção atmosférica, Liu obteve uma imagem mais
nítida da anã castanha, que é 2000 vezes mais fraca do que a sua brilhante
estrela hospedeira.
"As observações pioneiras
com o Observatório Keck ajudaram a esclarecer o chamado 'deserto das anãs
castanhas', a escassez de tais companheiras em torno de estrelas semelhantes ao
Sol a distâncias pequenas", afirmou Liu.
Agora, mais de duas décadas
depois, uma nova geração de instrumentos do Observatório Keck continua a
avançar esse legado. Utilizando medições ultraprecisas da estrela hospedeira
com o instrumento KPF (Keck Planet Finder), os astrónomos detetaram minúsculas
pulsações estelares que revelam a estrutura interna e a idade da estrela com
uma precisão sem precedentes.
"O modo especial de leitura
rápida do Keck Planet Finder torna-o o único instrumento no hemisfério norte
capaz de registar oscilações em escalas de tempo tão curtas", acrescentou
Li.
Testando como as anãs
castanhas arrefecem ao longo do tempo
As anãs castanhas são estrelas
falhadas, demasiado pequenas para sustentar uma fusão de hidrogénio estável,
pelo que arrefecem gradualmente e desvanecem-se à medida que envelhecem. O seu
brilho, portanto, depende significativamente tanto da sua massa como da sua
idade. No entanto, os astrónomos têm tido dificuldade em testar modelos
teóricos deste arrefecimento, em parte porque raramente se dispõe de idades
fiáveis.
Agora, com esta nova e precisa
medição da idade, combinada com a luminosidade e massa bem conhecidas de HR
7672B, o sistema torna-se uma "referência" excecional para testar
modelos evolutivos das anãs castanhas.
Comparando as observações com
seis modelos teóricos de arrefecimento diferentes, a equipa encontrou a melhor
concordância com os modelos mais recentes que incorporam física interior
atualizada. Sem os novos dados, a equipa não teria sido capaz de distinguir
este modelo das outras cinco possibilidades.
Estes resultados demonstram que
idades estelares de alta precisão são essenciais para compreender a evolução
subestelar - e mostram que a espetroscopia de precisão, com a próxima geração
de observações, irá finalmente fornecer esta informação.
"A investigação de Yaguang
tornou este objeto ainda mais valioso para a nossa compreensão teórica das anãs
castanhas", afirmou Liu.
Como próximo passo, os
investigadores planeiam generalizar este método a um conjunto mais vasto de
sistemas de referência e testar modelos evolutivos de anãs castanhas em
diferentes regimes.
Astronomia OnLine

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