Astrônomos encontram fronteira final da formação de estrelas na Via Láctea
Arqueologia galáctica
Astrônomos descobriram a
fronteira do disco de formação estelar da nossa galáxia, mostrando que a maior
parte das estrelas da Via Láctea nasce dentro de um raio de 40 mil anos-luz do
centro galáctico. Além dessa fronteira, a formação de novas estrelas cai
drasticamente.
Crescimento de dentro para fora e migração estelar na Via Láctea: Dentro do disco de formação estelar (aproximadamente 12 kpc), o gás frio alimenta a formação estelar contínua, produzindo estrelas jovens. Além desse raio, a formação estelar diminui drasticamente. [Imagem: Joseph Caruana/University of Malta]
A descoberta, que resolve uma
questão antiga da arqueologia galáctica, foi possível ao combinar idades de
estrelas gigantes com simulações computacionais avançadas, uma abordagem
inédita que revelou um padrão em formato de "U" na distribuição das
estrelas por idade.
Por décadas, definir onde termina
o disco da Via Láctea foi um desafio porque ele não tem uma borda nítida, mas
sim um desaparecimento gradual. Mas já sabíamos que as galáxias não formam
estrelas de maneira uniforme: O processo começa nas regiões centrais densas e
se expande lentamente para fora ao longo de bilhões de anos, um fenômeno
chamado de crescimento "de dentro para fora".
Isso significa que, em média,
estrelas mais distantes do centro tendem a ser mais jovens. E inicialmente os
astrônomos observaram exatamente esse padrão. No entanto, ao atingir cerca de
35 a 40 mil anos-luz do centro galáctico, a tendência se inverte: As estrelas
voltam a ficar mais velhas à medida que a distância aumenta, criando um
característico vale em forma de U no gráfico de idade versus distância.
Comparando essa assinatura com
simulações de última geração, a equipe demonstrou que o ponto de idade mínima
coincide com uma queda acentuada na eficiência de formação de estrelas,
confirmando que ali se encontra a verdadeira fronteira do disco formador de
estrelas da Via Láctea, a cerca de 40 mil anos-luz do centro.
"Em astrofísica, usamos
simulações executadas em supercomputadores como ferramenta para identificar os
mecanismos físicos responsáveis pela criação das características que observamos
em galáxias, como a Via Láctea. Em nosso estudo atual, por exemplo, essas
simulações nos ajudaram a demonstrar como a migração estelar molda o perfil de
idade estelar das galáxias, permitindo-nos identificar a borda do disco de
formação estelar da nossa galáxia," disse o astrônomo brasileiro João
Amarante, atualmente na Universidade Jiao Tong de Xangai, na China.
Migração radial
Mas, se a formação de estrelas
cai drasticamente nessa fronteira, por que existem estrelas além dela?
A resposta é um processo chamado
migração radial: Estrelas podem "pegar carona" nas ondas espirais que
varrem a galáxia, sendo gradualmente transportadas para fora de seus locais de
nascimento. Como a migração é lenta e aleatória, as estrelas mais distantes são
justamente as mais velhas e, mais importante, elas movem-se em órbitas quase
circulares, o que descarta a hipótese de terem sido ejetadas por colisões com
outras galáxias. Sua presença no disco externo é o resultado silencioso e
acumulado da própria dinâmica interna da Via Láctea, dizem os astrônomos.
Mas o mecanismo exato que faz a
formação estelar cair drasticamente nesse raio específico ainda é incerto. Os
principais suspeitos são a barra central da galáxia, cuja influência
gravitacional pode fazer o gás se acumular em certos raios, ou a curvatura externa
do disco galáctico, que pode interromper a formação de estrelas.
Novos levantamentos futuros
trarão dados mais detalhados para refinar essas medições e identificar os
processos físicos responsáveis, mas esta pesquisa já demonstra como as idades
estelares - antes difíceis de medir com precisão - se tornaram uma ferramenta
para a arqueologia galáctica, permitindo traçar como a Via Láctea se estruturou
e evoluiu ao longo de bilhões de anos.
Inovação Tecnológica

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