Duas estrelas anãs brancas desafiam o entendimento dos astrônomos

Astrônomos acabam de identificar duas estrelas mortas extremamente estranhas que estão redefinindo o que sabemos sobre os restos de estrelas 

Imagem via NASA

Esses objetos, chamados de remanescentes de fusão de anãs brancas, compartilham características tão incomuns que os pesquisadores propõem a criação de uma nova classe de astros. O mais fascinante é que ambos emitem raios X mesmo estando completamente isolados, sem nenhuma estrela companheira por perto para explicar esse fenômeno. 

As anãs brancas são o que sobra depois que uma estrela como o nosso Sol esgota seu combustível nuclear. Elas se tornam objetos extremamente densos, com o tamanho aproximado da Terra, mas com uma massa muito maior. Normalmente, quando uma anã branca faz parte de um sistema binário, ela pode roubar material da estrela vizinha, um processo chamado acreção que gera raios X. No entanto, esses dois objetos – batizados de Gandalf e Moon-Sized – não têm companheiras, o que torna sua emissão de raios X um verdadeiro enigma. 

Gandalf foi estudado pela equipe do Instituto de Ciência e Tecnologia da Áustria (ISTA), liderada pela professora Ilaria Caiazzo. Inicialmente, os cientistas pensaram que se tratava de um sistema binário porque detectaram sinais de material ao seu redor. Mas observações mais detalhadas revelaram algo surpreendente: o objeto gira em seu próprio eixo a cada seis minutos, um ritmo muito rápido. Além disso, o espectro de emissão de hidrogênio mostra picos duplos que alternam com o período de rotação, sugerindo a presença de um anel incompleto de material ao redor da estrela, como se fosse metade de um disco preso pelo campo magnético assimétrico e poderoso do objeto. 

Esse campo magnético forte e irregular é raro em anãs brancas de idade semelhante, que geralmente não são magnéticas. Gandalf se formou há cerca de 60 a 70 milhões de anos, após uma colisão violenta entre duas estrelas. O nome foi inspirado no personagem de Tolkien, conhecido por seus enigmas, justamente por causa de todos esses mistérios que ele apresenta. 

A outra estrela, Moon-Sized, descoberta anteriormente pela mesma equipe, é como uma versão mais evoluída de Gandalf. Ela comprime a massa do Sol em um volume comparável ao da Lua, gira rapidamente, possui um campo magnético intensíssimo e também emite raios X, apesar de estar sozinha no espaço. Sua fusão ocorreu há cerca de 500 milhões de anos, tornando-a mais antiga. Enquanto Gandalf brilha cerca de 100 vezes mais em raios X, Moon-Sized parece estar perdendo gradualmente a energia que alimenta essa emissão. 

Os dois objetos compartilham cinco características principais: são ultra-massivos, altamente magnéticos, giram muito rápido, não têm companheiras e emitem raios X. Para os astrônomos, encontrar dois exemplos com tantas semelhanças é suficiente para definir uma nova categoria de remanescentes estelares. Como explica a professora Caiazzo, em um universo tão vasto, um objeto estranho já motiva buscas por semelhantes, mas dois com tantas coincidências indicam que estamos diante de algo mais comum do que se imaginava. 

Os cientistas propõem algumas explicações para os raios X. Uma das favoritas sugere que o forte magnetismo e a rotação rápida conseguem arrancar material da própria superfície da anã branca, criando um fluxo semelhante ao que ocorre em pulsares (estrelas de nêutrons muito magnéticas). Outra possibilidade é que restos da colisão original ainda estejam caindo de volta sobre a estrela em órbitas alongadas, ao longo de centenas de milhões de anos. Uma terceira hipótese considera material externo, como asteroides ou planetas destruídos, mas isso parece menos provável porque não explica bem a emissão contínua em ambos os casos. 

Essas descobertas abrem novas portas para entender a evolução estelar e o destino de sistemas binários. Os pesquisadores destacam que ainda há muito a aprender: como esses objetos afetam possíveis sistemas planetários ao redor, por exemplo, e se todas as cinco características são essenciais para pertencer a essa nova classe. Encontrar mais exemplos semelhantes ajudará a confirmar as teorias e a desvendar os mecanismos por trás desses comportamentos extraordinários. 

Em resumo, Gandalf e Moon-Sized não são apenas curiosidades cósmicas. Elas mostram que o universo ainda guarda surpresas fascinantes e que, mesmo em objetos que já morreram como estrelas, a física pode se comportar de formas que desafiam nossas expectativas. Estudos futuros com telescópios mais potentes certamente trarão novas revelações sobre esses remanescentes exóticos e sobre o destino final de estrelas como o nosso Sol.

Terrarara.com.br

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